sexta-feira, 22 de abril de 2022

O TSUNAMI

 

Os dias estão passando e, toda aquela sensação de estar seguro em meu mundo está esvaindo em minhas mãos como areia. Vocês já tiveram essa sensação? De se agarrarem no que acham que está certo, e se amedrontar, porque a mudança é um tsunami, e às vezes é cansativo sobreviver. É que acabei me acostumando com esse novo mundo que criei, depois do último desastre. Mas, agora, me vejo novamente me preparando para nadar, e, não sei se consegui aprender direito no tempo que fiquei flutuando e me sentindo seguro.

Não há tempo para metáforas no mundo em que pertencemos, e, a cada dia me sinto mais distinto de tudo que pisa nessa terra. Às vezes mais paranoico a ponto de deixar meu egoísmo criar teses como a que foi dita agora. Às vezes mais sensato para não me misturar, para não fazer. Sei que minhas escolhas e desistências me levaram até dias cruéis e incríveis. Ultimamente, mais incríveis que o normal. Porém, ao acordar, já consigo avistar de longe toda a demolição que está por vir.

Você deve estar se questionando agora se eu estaria pronto realmente para mais um afogamento, percebendo minha aflição escondida em alguma palavra dita, como se fossem argumentos jogados ao  vento. Não é sobre isso que estou falando. As palavras que trago até sua mente para que você possa traduzi-las carregam uma carga bem maior, a de mudança. É preciso, ou, melhor dizendo, é impossível fugir da correnteza da mudança,  a única capaz de fazer você nadar, mergulhar, afundar. Morrer afogado durante o processo é inevitável. Renascer após o processo é inevitável.

Talvez toda essa montanha de água destrutiva em meu mundo traga um outro melhor e maior, como aconteceu quando esse apareceu. As probabilidades são grandes. Os riscos, excitantes. Porém, a mudança sempre vem com um apanhado de coisas que formam o seu entulho, sejam elas boas ou ruins. O medo é uma delas, porque sabemos que irá acontecer, e, gosto de não me sentir completamente preparado. Digamos que tudo isso seja então um lamento prematuro do que será deixado, aquele processo todo de luto por algo tão querido e inesquecível em nossas curtas vidas.

Não sei quando será, a grande onda não deixará nenhum bilhete ou aviso dizendo que é a hora, para que eu tenha tempo de me despedir de quem amo, pegar minhas coisas, sair de casa e esperar sentir os pingos caindo do céu, o choque da água confrontando meu corpo, desprendendo e jogando para longe aquilo que um dia fora meu mundo.  Ela simplesmente virá, e ninguém irá saber. Pode ser até que, após você terminar a última linha desse texto todo confuso, o tsunami já tenha passado, e eu  esteja construindo uma nova vida, sendo um novo eu. 

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terça-feira, 18 de maio de 2021

MOLÉSTIA SOCIAL

 

Vejo todo o poder e fantasia escorrendo por entre os dedos daqueles que sugam pouco a pouco tudo que consegui reunir de bom nos anos que vivi nessa terra. Vejo todo meu esforço significando menos do que o grande nada que ecoa em nossos dias. Ultimamente venho soltando chamas pelos olhos, por querer cegar-me de  toda maldade que existe no ser humano, se é que podemos nos chamar assim ainda. Homens que não conseguem mais enxergar humanidade nos outros, e, por tabela, parece que estou me tornando uma dessas aberrações cobertas pelo cinza do concreto de seus prédios, que juram e fazem questão de gritar aos sete ventos que foram feitos pela luz Divina, do que acredito não existir mais, pois vejo todo o poder e fantasia escorrendo nessas mãos.

Sinto meu corpo perdendo a sensibilidade do afeto, a cada perca afetiva que acontece. Ando me sentindo ranzinza, e, como um senhor prematuro, decidi fugir de tudo que me fizesse sentir pior. Mas, quanto mais eu corro, mais cansado me sinto por ter de correr. Sinto medo, medo de que o amor que protejo de toda sombra e monstruosidade de tudo que permeia  as coisas boas desse nosso mundo desapareça, que eu não sinta mais essa beleza que preservo. Felizmente, não sou único, e, os poucos sobreviventes, carregam consigo esse mesmo amor, sinto ao tocar seus corpos. Abrem e fecham os olhos ao meu lado, mantendo o que restou de verdadeiro em meu sentir, e, sei que no deles também. Por outro lado, essa certeza não apaga o medo que sinto de perder o que ainda me faz querer fugir, faz-me sentir razinza, porque tudo isso é proteção, uma casca psicológica que uso para não me tornar pior.

Tornei-me uma ostra, onde tento transformar a sujeira do mundo e das pessoas em algo belo. Porém, em meio a tanta poluição, mais me machuco do que crio beleza. Ando pelas ruas como uma tartaruga acidentada por plásticos em decomposição. Forte, protejo em minha fortaleza tudo que sinto valer a pena, mesmo que seja apenas um ou dois sorrisos que vi antes de dormir.

Ouço que eu deveria me contentar com a grande quantidade de poucos ditos até aqui, como todas as outras metáforas de uma vida simples e comum que possuo. Ouço também que eu deveria agradecer pelo que acontece na vida, pois tudo é aprendizado e às vezes podemos tirar algo de bom em todas as complicações que aparecem. Só gostaria de ouvir que esse meu esforço para aguardar tranquilidade está me levando para algo além de paranoias e palavras frias. Almejo que meus ouvidos conduzam lentamente palavras que não sejam apenas de conforto platônico. Você já sentiu vontade de ouvir algo e não acreditar que é verdade de tão bom? Não gostaria de conhecer a intensidade do oposto.

Pareço pessimista, mas, a realidade se tornou morna, irreal, um ato constante de sobrevivência, e, aprender a sobreviver é aprender a sacrificar, sem remorso. Sentimentos. Lembranças. Pessoas. Nós mesmos. Seguimos em dicotomias e discrepâncias que envenenam até os mais bondosos que pousam por aqui.

Faz dias que não sei como concluir pensamentos, ou textos, pois tudo que passa pela minha cabeça é não saber como será amanhã. E também, pouco importa, não é a imprevisibilidade o problema, é como o mundo e as pessoas estão. A única coisa que tenho certeza é de como eu não quero ser amanhã. Minha esperança é guiada por essa luz, e nenhum ser inumano, nenhuma falta de sentir ou ouvir irá conseguir apaga-la.

 

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terça-feira, 4 de maio de 2021

POR QUE VOCÊ NÃO ME CHAMA DE AMOR?

 

 

“Eu quero cantarolar com os pássaros em uma segunda de manhã ao caminho do trabalho, por ter recebido a mensagem mais simples e sincera, de alguém que, poderia acordar e dormir na mesma cama que a minha por anos, mas ainda veria uma menina que tem medos, e precisa segurar-se em credos próprios. Uma tola, prestes a cair em qualquer palavra doce que pudesse ler. Quero padres, daminhas de honra e minha mãe chorando ao meu lado no altar, por mais que eu nunca tenha visto minha mãe chorar algum dia, e, se existisse algum Deus, eu estaria do lado oposto dele. Quero alguém capaz de amar esse meu lado oposto da Glória de Jesus também.”

 

 

Foi isso que escrevi no meu diário. Dezesseis anos, jurando que sabia o que era amor e ser amada. Acho que todos já fomos ou somos assim. Em todos existe uma criança interna que grita por atenção, por tudo de mais brega e egoísta que possa parecer, porque crianças não percebem dicotomias. E, eu, logo eu, Valéria Cristina, não sou nenhuma alienígena para sair da estatística cortante, da inevitável constatação, da verdade absoluta. Temos que aprender a lidar com nossas próprias ilusões. Temos que conviver com essas crianças internas, que eternamente irão deixar nossa mente em conflito.

Quando fico pensando bastante sobre o que espero de alguém, ou de mim mesma quando estou com alguém, viajo, vou para lugares que já fui com alguns pequenos casos, lembro-me de amores que, se dependessem de mim, ainda existiriam dentro do meu coração. É sobre isso que quero falar com você que está lendo silenciosamente em sua cabecinha vazia agora. Como todo clichê chiclete e  superficial pode encaixar na sua vida quando você está feliz ou amando, os clichês negativos também servem como uma luva quando esse tipo de pensamento permeia em seus sonhos. Não depende só de você. Quando um não quer, dois não brigam. Quando um só quer, esse fica pensando em hipóteses e teorias malucas, e assim permanece por horas, dias.

Para constatar aquilo que minha mente sussurra, às vezes crio experiências malucas e invisíveis, e, gostaria de usar aqui para um pedido de desculpas. Não digo que são experiências de fato, porque não são intencionais. Como nas vezes que aguardo ouvir um eu te amo espontâneo, aquele que aparece de repente. Ele existe, porque já vi tantos outros o receberem. Nunca cheguei a um limite, sempre fui a primeira a dizer, antes que minha angústia me asfixiasse. Ou, como o título do que está lendo lhe traz, as vezes que esperei por alguém capaz de me chamar de Amor. Todas em vão, sou um fracasso como uma cientista.

É preciso falar de amor, falar do amor, da forma que ele deveria ser dado à todos. Amor é quando alguém decide não ir embora e continuar na onde o companheiro está, mesmo que tenha a melhor oportunidade de uma pessoa, porém, não duas, e isso não a deixa infeliz. Amor é quando percebo um casal se tratando cordialmente, mesmo quando nitidamente estão frágeis, tristes um com o outro. Amor é um sentimento acima, mas não arbitrário. Amor é o que busco na vida, e, não deveria ser tão difícil assim de ter. Todos têm. E, eu espero que no final desse texto eu consiga convencer pelo menos uma pessoa do valor e da força de dar e receber o amor.

Eu tenho um certo problema com titulações, acho que elas precisam existir. Tenho necessidade de saber o que sou para alguém, são pequenos egoísmos que quis manter em minha essência. Na minha cabeça, desde menina, eu queria alguém que pudesse me chamar de amor. Antes, um namoradinho do colegial, agora, estou em um nível de desespero que se o porteiro do meu prédio me chamar de amor, eu choro e digo que aceito.

Os amores vieram, eu que nunca fui. José dizia que ficaria estranho se me chamasse de amor, pois era como ele chamava sua esposa. Antônio tinha trauma de seus relacionamentos antigos, e não queria rotular o que tínhamos, nem a mim. Pietro foi mais longe, dizia que amor era um sentimento muito grandioso e que levava tempo, um tempo que os seis meses que moramos juntos no mesmo teto não o fez perceber que às vezes ele me amava mais do que eu mesma. Teve até um tempo que me aventurei em novos tipos de relacionamentos, mas, como eu nunca fui a primeira a existir naquela relação ou situação, essa coisa de amor não cabia em mim.

O tempo passa e, às vezes acordo triste, fico em silêncio o resto do dia, e as pessoas à minha volta não conseguem entender que eu só busco o mínimo, pois nunca o tive. Sou uma anormal por isso? Talvez eu tenha enlouquecido. Eu sei que já fui amada, já me senti assim, muitas e muitas vezes. O problema é que, amor é algo que precisamos constantemente entender nas entrelinhas, dentro de nós mesmos? Por que nos filmes e em todo lugar que eu vejo, as pessoas não tem dificuldade em verbalizar o que sentem, e, comigo é sempre uma linha em branco, sempre com sacrifícios?

Pode ser brega, em um carro de som em frente à padaria que vou buscar pão todo dia que estou de ressaca. Pode ser em um jantar românticos depois de comemorarmos mais um ano juntos. Pode ser ao acordar e ver que já preparei o café enquanto dormia. Pode ser em qualquer ocasião, não tenho mais idade para pensar em cavalos brancos ou em padrões de amor, eu só quero tê-lo.

Dizer “só” é uma falácia, perto de toda confusão que fica em mim quando sinto sua ausência.




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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Adeus Terra do Nunca

 

- Você já pensou quando a Terra do Nunca não existir mais? Para onde você vai? Você já parou para pensar que você pode nunca mais se acostumar em outro lugar?

 

 

Foi assim que meu coração foi parado pela primeira vez. Nem nas minhas maiores fantasias eu pensaria que Sininho fizesse essa pergunta, logo depois de ficarmos imaginando quais animais seriam aqueles nas nuvens. Vejo pelos olhos dela que não consegue compreender meu descontentamento por ter sido interrompido de um momento tão leve e sensível para pensar naquilo. Na morte, no fim, em um recomeço forçado que eu não queria lembrar.

Sempre protegi a Terra do Nunca com unhas e dentes. Não me senti como seu dono, mas, sim, como alguém grato por tudo que ela me proporcionou. Pensar na sua inexistência é como parar de admirar sua vida. Para onde mais eu poderia ir e me sentir da forma que me sinto hoje? Outra vida não irá me satisfazer, tenho convicção disso! Eu escolhi estar aqui, todos têm essa escolha! E somos abraçados pelos campos, pelos mares e por tudo de belo que habita nessa ilha.

Eu não nasci aqui, e, tive alguns anos sabendo como sou em outro lugar. Hoje, apesar do tempo que me afastei, sei muito bem que aquele Peter não volta mais. O que esse novo pequeno homem será quando partir da Terra do Nunca é um mistério. Talvez eu nunca mais mude, e tenha que viver amarguradamente, pensando na vida que tive. Talvez eu encontre outra Ilha pelo universo, tão ou mais perfeita que essa, e nunca mais a lembre. Mas, essa é uma dúvida que não deveria aparecer entre um elefante e um leão no céu.

Me pergunto o porquê de isso ter acontecido. Ela não sente tudo aquilo que a Terra do nunca me faz sentir? Ela não quer estar aqui? Eu sei que todo mundo pode ir para todos os lugares, e o universo é para ser conhecido. Porém, sinto como se tivesse encontrado minha terra natal. Meu lar. Onde eu quero criar raízes. Onde eu posso abrir minhas asas e voar, sem saber ou precisar pensar no que os outros pensarão.

Por que pensar na morte, no momento em que mais me sinto vivo? Por que lembrar da existência da solidão, quando o amor percorre todas as minhas veias? Por que eu, logo eu, tenho de fazer planos infalíveis, pensar em todas as possibilidades possíveis, para não sofrer com o fracasso? Eu não tenho medo de sofrer. Do mesmo jeito que estou chorando aqui, só de pensar que minha Terra do Nunca pode não existir um dia (por mais que ela sempre existirá em minha alma), chorarei depois, caso isso aconteça de fato. Conseguem entender? É desnecessário. Eu sei que a morte existe, sei que a solidão tem de ser sentida. Mas não quero parar de maravilhar todos os cantos desse lugar com esse pensamento bobo, que acabou consumindo toda minha alegria, me deixando com medo.

Sei que Sininho não fez por mal, e, vejo o desespero em seus chiliques por ter percebido que havia falado demais.  Não a culpo, porém, isso não me tira o direito de questionar o seu questionamento. Mas, diferente das outras vezes, não gritei, não quis mostrar que seu pensamento estava errado, que ela estava sendo contraditória. Outro dia mesmo, enquanto voltávamos para cá depois de jogar o Capitão em meio à um mar cheio de tubarões e deixa-lo à mercê da sorte, ela dizia enquanto perambulava entre o céu: “Precisamos viver o agora, só assim nos sentiremos felizes!” E, nesse agora dela, ela está me fazendo pensar em um amanhã que talvez não exista. Pelo menos dentro da minha vida, ele nunca existirá. Pensar que talvez isso seja uma certeza dentro da sua cabeça, me entristece. Mas, a primeira palavra é que conta, é o que dizem. Me prenderei a isso.

E o que fiz quando me dei conta que estava pensando demais, e nenhuma palavra havia saído da minha boca? Voei, voei para bem longe, voei antes que ela me forçasse a falar algo. Fiquei em silêncio, e aqui estou, pensando até agora em uma pergunta de dois segundos. Estou aqui escondido em uma gruta, esperando a coragem aparecer para assim responder a Sininho, que deve estar preocupada. Quem sabe eu escreva alguma carta, pedindo desculpas, e mostrando que às vezes não precisamos pensar muito no amanhã. Viver já é uma preparação para aquilo que pode ou não vir. Talvez coloque debaixo da folha que ela faz de travesseiro, e me esconda no mesmo lugar que ela sempre me procura. E assim, seguimos vivendo felizes, enquanto alguns monstros fantasiados de dúvidas ainda precisam ser derrotados.




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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Destino ou acaso, a solidão é minha única companheira

 Estou triste. É pior do que se eu estivesse doente. Algumas pessoas acreditam que seja uma doença, mesmo. Não penso assim. Mas dói, dói dentro de mim, invisível. Acabo sofrendo duas vezes, três, tantas. Essa não é a minha melhor personalidade, mas, é a que mais respeito. Não me tiro o direito de sofrer. Quero que passe, que não deixe nada aqui. Eu sei que em algum momento passa, mas o que dói é o processo que me levou a ficar triste. Eu não tenho o poder de convencer as pessoas a ficarem. Se eu tivesse, eu ficaria.


Estou sofrendo por amor. Como é forte assumir isso. Mas não é qualquer amor, também. Ele é pequeno,  novo, cheio de vida. Deixar de senti-lo está me entristecendo, me esvaindo. Gostaria que a vida dele dependesse apenas da minha, faria de tudo para mantê-lo vivo, saudável, feliz. Mas, ao invés disso, observo de perto sua decomposição. Seguro sua mão e digo que amanhã será um dia melhor, sabendo que talvez não exista amanhãs para ele. Eu minto, minto e sofro. 


Quando dei por mim, me senti como um robô programado para passar por aquilo. Essa foi uma das muitas coisas que passaram pela minha cabeça, e tive muito tempo para criar fantasias e situações que pudessem suprir a ausência que eu estava sentido. Até o presente momento ainda sinto. Me falta coragem para assumir minha solidão. Me falta coragem para entender de forma realista que talvez seja nada. Me falta coragem para querer me submeter a ficar desse jeito de novo, e isso me faz voltar a minha primeira falta de coragem citada aqui. Percebe? É cansativo, eu concordo. Mas, o que eu te pedi?




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sábado, 17 de outubro de 2020

M.E.D.O.: Mansão Extraordinária de Demônios Oportunistas

ALFA

 

E olha só, você sofrendo novamente com sua ansiedade. Será que em algum lugar no mundo existe uma alma capaz de te entender? De saber o que passa na sua cabeça e perceber que algumas coisas são sérias. Que sumir é sério para você. Que minutos de silêncios são sentencias de morte diversificadas e dolorosas dentro de ti. Que nós só aparecemos em você porquê você não se aguenta sozinho mais.... Na verdade, estava se aguentando sim, isso não é culpa sua. É quem você é. Aceite-nos, e, dessa vez, fique quieto até todos sumirem. Não se julgue, não se maltrate. Faça nada. Você não precisa fazer nada. Tente sentir seu sofrimento como um aprendizado, e, olhe para o seu passado, antes era bem pior. Agora podemos conversar, e, ainda mais, agora você está nos ouvindo. Espero que a pessoa que fez você nos trazer a vida novamente perceba seu esforço de não surtar, seu esforço de não se mostrar tão triste quanto você realmente está. Espero que ele quebre todas suas paredes e te encontre nessa mansão que estamos. Que ele seja seu cavaleiro salvador, seu amor genuíno. Porque sofrer todos sofremos, e, você merece todo o bem do mundo. Me sinto triste de ter que te consolar, vejo tanta luz em seus olhos. Não se apague.

Ele parece ser uma pessoa boa, certeza que você quer se sentir assim? Você sabe que a partir do momento que você nos expor, será como uma bomba. Talvez ele estresse, talvez ele não entenda. Ele tem de entender? Tá tudo bem, se segure mais um pouco. Não queremos te ver sozinho tão cedo novamente.

 

 

BETA

 

Vá atrás. Se possível, corra. Se não der certo, talvez seja por você não ter voado. Você é forte, consegue superar todos seus medos e paranoias, porque nós somos apenas medos e paranoias. Ele é real, ele pode ser seu. E sei que poucas vezes você se sentiu dessa forma, e não irei ficar me alongando mais que isso. Não pense nas consequências que virão por não ter valido a pena engolir seu orgulho e admitir seus erros. Difícil será quando você olhar para trás e pensar que poderia ter feito algo para mudar essa situação.

Hoje à noite fique de campana bem na esquina do quarteirão da casa dele. A esquina de cima, se possível, para, se caso ele aparecer de carro, você será sua primeira visão. Use preto, seja dramático. Você já mandou mensagem para ele no instagram? Cansou de ser ignorado no Whatsapp? Não se esqueça de ligar. Ligue, ligue três, sete, quinze vezes. Eu quero ver você destruindo o pouco de paciência que ele deve estar com você. Aliás, quero ver ele entendendo de uma forma totalmente errada todas as palavras ditas aqui, e querer sumir. Porque ele vai, okay? Se já não tiver sumido. Você não consegue fazer ninguém ficar, nem mesmo quando você quer.

E parece que ele você quer, então, vá atrás. Quando ele aparecer na rua, só olhe. Se ele estiver com outro, chore. Tente não se humilhar, é diferente de correr atrás. Nenhum de nós quer que você se humilhe, só queremos mostrar: Ninguém te aguenta, talvez nem mesmo sua mãe, então, todo o esforço que você fizer é válido. Somos seus amigos, no final das contas.


GAMA

Não comece, esse é meu conselho para você. E eu poderia terminar meu pensamento por aqui, não existe mais algo que possa ser completado, prolongado. Você, muito melhor do que eu, sabe  como isso pode acabar. Na verdade, você já sabe por onde está indo todo esse sentimento e vontade de fazer parte da história de alguém. Você quer sofrer mais? Quer se sentir indefeso? O que você quer? Será mesmo que você sabe o que quer? Olhe como você está se sentindo, fragmentando suas personalidades a ponto de achar que a loucura está batendo na sua porta novamente, só para conseguir argumentar um sentimento. Só para tentar entender porquê perdeu mais uma oportunidade de viver de verdade. Eu particularmente acho isso mesquinharia, mas, já que estou preso à sua mente, e fui criado por ela, o que me resta é falar: Não comece.

Eu sei muito bem o que passa por sua cabeça, é onde eu moro. Você merece tudo isso que imagina, tudo isso que espera de alguém e de você mesmo. E eu sei que você me chamou para dizer o que você quer ouvir. Até esse alerta de segurança você quer ouvir. Sua consciência é um dos lugares mais manipuláveis da face da terra. Quantas vezes você mudou de ideia hoje? Às vezes pode ter acontecido nada (como agora), e, sua cabeça não aguenta. Você não se aguenta, por isso estamos aqui. 



DELTA


O que ele fez para te deixar assim? O que você fez para ele? Pare de se culpar assim! Será que você realmente acredita no amor? Por quê, então, você precisa estar nesse estado de se odiar tanto por não saber se algum dia você já foi amado? Para de ser surtado, você é louco! Mas, você é louco por achar que algum dia alguém vai ser capaz de te amar.

Ninguém sabe o que se passa na sua cabeça, então, não se ache a pior pessoa do mundo por sentir. Você é uma pessoa intensa demais, talvez esse seja o preço: Meia dúzia de demônios imaginários que não conseguem ter um pensamento conciso. Não acate os conselhos de nenhum de nós, você não está raciocinando direito para tomar nenhuma decisão. Peça ajuda a alguém! Ah, me esqueci, você não tem mais ninguém. Mande mais um oi, a gente deixa.




                                                                                                                                

                                                                                                                                Oi.




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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Pandêmico


Nada é por acaso. Leio essa frase todos os dias quando acordo, está escrita na parede do meu quarto. Já tentei tirar com água, vinagre, álcool. Tudo em vão, nada é por acaso. Eu poderia ter passado alguma tinta da mesma cor da parede no local, uma vez que o imóvel não me pertence, tanto quanto a maioria das coisas as quais tomo posse na vida. Ultimamente, tenho bastante tempo para pensar na origem do alerta messiânico disfarçado de frase motivacional, e, minhas teorias me levaram a crer que o aviso foi obra de um antigo inquilino, com intuito de eternizar sua visão de mundo na mente dos seus iguais. Pessoas sem terra e sem história se conhecem, mesmo nunca tendo se encontrado. Mas, se nada é por acaso, eu deveria alterar o destino? Pois ali deixei, e, me mantenho deixando as coisas como estão desde então. Até mesmo o mundo tomou a mesma decisão.

Lá pelas dez da manhã, penso em minha vida como um longa-metragem, e, na verdade, sou um herói derrotado vivendo apenas dentro dos olhos de alguém. Será que estou dentro da História de um próximo Boyhood? Com menos investimento, mais sarcasmo e uma incerteza enorme de qual fim tomaram. Poderiam ter colocado alguns alienígenas, alguma viagem espiritual de evolução, colocando assim qualquer pessoa mediana com inveja. Estou cheio das suposições contadas a mim, cheio dessa esperança vã que me fazem sentir por obrigação, pois não há outra coisa para sentir no momento. Não conheço outros sentimentos além daqueles imaginados para esse personagem no qual fui imaginado.

Ou talvez seja algum tipo de jogo futurista, porque eu sinto estar sendo controlado por uma força maior, capaz de me deixar inerte nesse papel arquitetado para o meu avatar. Sinto o ópio pelas minhas veias, responsável pela minha falta de reação à todas as novas lutas que tenho de enfrentar. Além do mais, elas não dependem só de mim para serem ganhas. Até mesmo o nascimento desses pensamentos pode ter sido orquestrado por alguém, nada é por acaso. Quem sabe, algum dia, descubro que, depois de algumas centenas de anos, o homem foi capaz de criar um sistema capaz de fazer você sentir tudo, sem estar vivendo aquilo em seus ossos.

Ter ciência de estar preso num mundo fictício doeria menos do que sentir a certeza de estar vivendo uma realidade tenebrosa. Ao invés de liberdade, vivo uma desesperadora eternidade, uma nova prisão. Por menor que seja a quantidade de dias e meses aos quais estou enclausurado nesse nível mais destrutivo de viver, repleto de doenças invisíveis e mortais, políticos carniceiros e uma sociedade totalmente alienada e agressiva e hipócrita, eu não consigo mais ver o fim, não consigo enxergar uma mudança sem mortes eminentes, de inocentes ou até mesmo a minha.

E, enquanto esses pensamentos me consomem, o dia se vai entre meus dedos. Faço tudo conforme o script mental sussurrado em meus ouvidos. Escovo os dentes mais de três vezes ao dia. Tomo banho, faço minhas refeições. Leio as notícias porque, eu posso duvidar da realidade, porém, fechar os olhos para ela não é uma opção. Sou prestativo sempre quando me é requisitado ser. Jogo ao universo frases de efeito diariamente, esperando ele me devolver todas, de forma concreta, na mesma intensidade. Peço um fim diferente. Rogo pela paz interna a qual foi substituída por um vazio.

Também penso em amor, apesar da dificuldade de imaginar um em tempos de cólera. Daqui cinco anos eu posso estar casado, morando em um lugar que não tenha um lembrete mórbido no meu quarto, o qual tenho medo de ignorar. Alguém capaz de amar minhas personas, ou melhor, o resultado de todo esse teste diabólico imposto a mim. Ele irá estar comigo em todos os momentos. Às vezes, imagino uma cena cotidiana. Uma pessoa sem rosto ao meu lado, me acompanhando. Sinto ela feliz por estar compartilhando aquele momento comigo. Uma quinta-feira. Um café da manhã. Um episódio de uma série visto no fim da tarde, depois de um dia de trabalho que vai para conta do esquecimento. Não precisamos ver para sentir essas coisas, para sentir gratidão. E eu sentia, vindo daquele corpo sem rosto na minha imaginação, não me deixando sozinho, e, eu devolvia o sentimento na mesma proporção.

Tento fazer minha mente trabalhar coisas as quais considero saudáveis, para alimentar menos essa ideia de estar vivendo em uma Matrix doentia, e, quando vejo, estou deitado na minha cama, passando da hora de dormir novamente. Dormir pouco e mal foi algo adquirido ao longo dos dias iguais, completando o combo de novas mesmas coisas concluídas como um roteiro de um demente internado em uma clínica psiquiátrica. Tomo as pílulas, compareço nas terapias. Lá, eles não têm mais noção da realidade. Lá, eles vivem tentando achar um significado para a vida. Um filme sem começo ou meio ou fim, apenas uma cena na qual acaba e começa, acaba e começa, mas nunca acaba. O amor deles também não tem rosto? Gostaria muito de ter criado todo o exposto até aqui de fantasias, resultado apenas de uma imaginação fértil, exemplos distantes da minha realidade. Mas a única mentira contada a você é o que disse estar na parede, que, por coincidência, ou ironia, é de todo branca.

Figura 1: White Cube. Disponível em < http://ttnotes.com/white-cube.html#gal_post_30248_white-cube-london-5.jpg> Acesso em 31 de jul. de 2020. 



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