Eu não preciso de ninguém.
Nunca li muito sobre mantras ou todas essas
coisas que dizem ser como um conta-gotas espiritual, que serve para melhorarmos
em algo, mas tenho essa frase como meu lema desde o dia em que nasci. Repito
isso toda vez que me sinto perdido no meio desse mundo tão imenso. Mas é que me
sinto tão pequeno às vezes, quando ando pelas ruas, quando tenho que conviver
com pessoas que claramente são melhores que eu, e que provavelmente já tiveram
essa mesma certeza e seguem vivendo suas vidas egoístas nesse mundo tão imenso.
Me sinto tão minúsculo ao meio de tanta lama que piso, mas, agora me sinto
forte. Onde fica toda essa força? Por quê ela foi ignorada por mim todos esses
anos, e se esconde, dentro do meu peito e explode, dentro do meu peito, e
corre, por entre os cômodos da minha gata, e goteja, por entre as telhas do meu
quarto, e se espelha, em meu corpo. Por quê ela é ignorada por todos que
encontro por aí? Porque eu sei, todos veem, todos sentem, mas um ou outro
consegue descrever algo que a envolva.
Sou
grande, mesmo sozinho. Ocupo muito espaço nesse mundo, agora, ando por meio de
lugares que não me suportam mais. Queria ir embora, mas para onde vou? Todos os
lugares por aqui parecem o mesmo, independente do tamanho, sempre grandes, ora
pequenos, ora não pertencentes a mim. Não tenho um lugar nesse mundo que eu
possa dizer que me representa, tanto sangue derramado e confundido com derramar
de pétalas funerárias dos corpos sem vida que rastejam ao meu lado. Perambulo pelas
ruas, pois, hoje, percebo que eu sou um ninguém também, e como sou ninguém, não
preciso deles.
Eu não
preciso de ninguém, e isso martela na minha cabeça vinte e quatro horas por
dia. Tento dormir, mas, lá, eu também tenho a ilusão de ser uma pessoa
dependente, que se decompõe pouco a pouco pelos erros dos outros, pela falta de
consideração dos outros, por não ter quem me ouvir, por não ter um ombro para
molhar de lágrimas nas noites que nem nós mesmos nos aguentamos, por não saber
que lugar eu posso confortar meu corpo inválido nas ultimas horas esperadas do
meu ser, por não conseguir gritar, por ser eu.
Eu não
sei o que eu sou, isso é verdade. Mas, na procura de saber minha verdadeira
identidade, acabei encontrando coisas que não sou, e coisas que me tornei. Sou sozinho,
mesmo rodeado de rostos que insistem em me julgar, mas somos todos iguais. Não existem
espelhos em seu mundo? Perda de tempo cobrir-se de razão, enquanto escorre seus
erros pelas pernas. Sinto seu cheiro. Não sou egoísta, por mais que pareça,
sempre pensei no outro, até agora, tentando expor todo meu sofrimento por não
saber o que estou fazendo aqui ainda, é pensando que existem outros como eu por
aí, sofrendo, chorando pelos cantos sozinho por não ter quem consiga ouvir seu
grito de socorro. Não sou como eles, por mais que se pareçam comigo, e isso me
faz não precisar de ninguém.
Subo pelas
paredes, acho um pouco de alívio nas curvas de outro qualquer e sacio meu
veneno, que uso em mim mesmo. Não sei ao certo se pode ser considerado como
algo nocivo, porque é disso que me alimento e continuo a suportar todas as
tristezas que se instalaram na minha alma, mas dói também. Dói todo o processo,
dói o roteiro, dói a língua, dói ter de deixar entrar alguém que não quer
entrar, e ter de permitir sua saída, pois nada é meu, nem eu.
Eu não preciso de ninguém, mas, é por alguém,
não sei quem, que continuo fazendo todas as coisas que me fazem morrer aos
poucos, porém, a morte verdadeira ainda me espera. Morro todos os dias quando
vejo toda a ganância e individualismo que existe em terra, porque, mesmo não
precisando de ninguém, eu não preciso destruir sua essência. Até hoje, todos
que passaram por mim, levaram um pouco do que existia aqui dentro. Foram tantos,
que não sei por onde começar para conseguir buscar de volta aquilo que fora
meu. Com isso, acabei tendo certeza de que não sou mais o que foi designado na hora do meu
nascimento. A partir disso, posso ser qualquer coisa, pois, de todos que
passaram por mim e retiraram meu ser, o que eles são, tem um pouco de mim. Eu sou
eles agora, e, agora, eles irão sentir minha angústia também, meus medos, minha
vontade de morrer logo caso isso não acabe. Sou tantos, que agora não sei mais
qual posso ser essa noite. Me confundo, mas sei que, qualquer caminho que eu
escolha será o correto, pois, se existe destino, carma, a Deusa, ou qualquer
outra forma divina que esteja acima de mim, eu tinha que escolher estar onde
estou agora, só não sei por quê. Eu sinto todos, e, agora, todos que têm um
pouco de mim correndo em suas veias irão sentir também, passarei pelas ruas,
pelas casas, hospitais, prisões, palácios, mares, montanhas, florestas, sonhos,
atrás de entender tudo que existe de bom e ruim no mundo. Somos os dois. Não
precisando de alguém, também percebi que não preciso saber quem eu sou, mas sim
em quem eu serei o dia que poderei descansar. E, só para não ficar tão mórbido
toda essa reflexão de quem eu sou e tudo de ruim que foi marcado em minha pele
e me fez sentir asco pela minha existência, de uma vida toda errada e sozinha,
me sentir feio por tudo que me permiti ser e fazer até hoje, existe algo que
nunca foi tirado de mim, e nem conseguiriam:
A coragem de ser.
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