domingo, 31 de janeiro de 2016


Ela vinha toda quarta-feira, depois do pico do sol. Ela ou ele, não sabia muito bem descrever o gênero das abelhas, pois nunca perguntou diretamente a ela, se era de fato uma senhora, senhorita, moça inocente como pensava, ou era um rapaz que roubava de sua donzela o mais íntimo segredo dentro de seu ser. Não se importava muito se era uma abelha ou zangão, pois mesmo ele ou ela não tinha uma definição do que era de fato. Sabia o que era, mas não sabia qual era, sentia-se assim. Isso de macho e fêmea era coisa de humano,  como sempre diziam os outros lá do canto. Só os ouvia, nunca os vira de fato, mas sabia que eram sábios demais para falarem algo que não era verdade. Diziam que existia algo, que nunca tinha visto, mas era tão perigoso e mortal, que rezava para não ver. Ou fazia algo que lembrava o rezar, pois isso também era coisa de humano, desses seres perigosos, porém sabia que faziam isso quando tinham medo de algo, se existisse algo que lhes dessem medo, pois pareciam tão imortais. Rezar fazia com que sentissem-se melhor. Ele, ou ela, para sentir-se melhor, olhava para o lado, e se apaixonava cada vez mais, pouco a pouco, pela linda companhia que tinha.
Não gostava das quartas. Aquela abelha/zangão sempre escolhia sua companhia, e ele podia em nada ajudar. Sentia-se impotente, estático, e realmente era. A abelha vinha, tão sedutora com seu zunzun hipnotizador, fincava seu ferrão de forma tão fria adentro do corpo frágil e delicado, mas nada saia além de pequenos suspiros do ar. Corajosa, continuava ali, imóvel, como se nada acontecera no momento, mas no fundo sabia que ela estava sofrendo, apesar de nunca ter sido escolhido para sofrer, imaginava a dor, como também imaginava o amor que sentia por ela. Na verdade sua vida era imaginar, e olhar em sua volta o que acontecia, e admirar a semelhança que tinha com sua pequena e brava companhia.
Não sabia porquê, mas imaginava, como sempre, que gostava dela por ser sempre escolhida nas quartas por aquela abelha. Não sabia se sentia inveja, ou se ficava triste por não ser ele o escolhido, mas ficava pensando o que ela tinha de mais, o que ele tinha de menos. Passavam-se as semanas, e quanto mais acontecia, mais tinha certeza que não aconteceria com ele. E chorava, o que achava ser lágrimas, pois diziam que era o que saía quando a angústia dentro de si era tanta, que não cabia mais no corpo. E seu corpo era tão frágil, pequeno, e cabia tanta coisa, que nem sabia o que era. Mas não sentia raiva, isso não sentia. Por mais que queria ser como ela, não se achava aos seus pés. Nunca a viu o olhando, mas ela sabia de sua existência, todos sabiam. E isso o confortava. Queria ter coragem para ter um primeiro contato com sua misteriosa companhia, mas isso nem humanos tinham, imagine uma simples margarida.
Até que um dia, numa odiosa quarta-feira, um grande terremoto começou de repente. Foi logo após o assalto da abelha sanguessuga, que foi interrompido por tal movimentação estranha não identificada. Sentiu dor, ou pensou ser dor, porque dava vontade de gritar e parecia não ia acabar nunca. Pensou-se ter morrido, aquilo que os humanos dizem que acontece quando a vida acaba, mas não se sentia diferente, digo, diferente sim, mas ainda vivia. Estava sem chão, ouvia-se coisas estranhas. Demorou para abrir os olhos, viu aquilo que mais temia: Humanos. Vários, aos montes, dos mais diferentes tipos. Olhou para si, sem parte do corpo, talvez tenha perdido duas ou três pétalas. Mal respirava, e ficou mais difícil quando lembrou-se da amada. Procurou em todo canto, por mais iguais que pareciam ser, sabia qual seria aquela doce companhia. Achou-a tão longe, naquele aglomerado de igualdade que sufocava cada vez mais, mas suspirou aliviado por ainda estarem juntos.
Queria poder gritar um "estou aqui" mas estava tão fraco. Queria voltar no tempo, mas não sabia nem por onde começar se voltasse. Ali, logo ali, começou a querer tanta coisa, que nem sabia o que era. Poder ser amado, ser livre, ser humano. Piscava cada vez mais devagar, tentando aproveitar os momentos em que conseguia ficar de olhos abertos para avistar, de longe, a companhia, que não parecia mais tão desejada como antes. Ouviu algo estranho, que parecia um "tananana tan tan nana tan tan", lembrou do que diziam sobre algo chamado música, que acalmava, mas essa só doía. Lembrou do ferrão, da abelha, da dor que nunca sentira e tentou comparar com a que sentia agora, admirou ainda mais sua amada. Pensou consigo que não aguentaria tal dor tantas vezes, queria dizer isso para ela, mas mal conseguia abrir os olhos. Ao ouvir algo parecido com "Danilo e Mariana, declaro-lhes marido e mulher" fechou os olhos, desejou algo que nunca existiu, sonhou  com seu condenado amor, e declarou ódio eterno a todas quartas-feiras.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Por favor, não volte.












Nunca tive medo. No começo não houve palavras, e quando digo começo, foram dias, meses e mais meses de um silêncio puro, ingênuo , que fez com que ele parecesse uma criança querendo descobrir o mundo que estava a sua volta, mas ainda na barriga da mãe. Não o via, mas sabia que ele estava por lá, em algum lugar escondido na penumbra do quarto vazio do meu apartamento. Lembro que estava dormindo quando escutei um barulho vindo de lá, mas, por algum motivo permaneci na cama e voltei a dormir, até que no dia seguinte o quarto estava todo bagunçado e o guarda-roupas entreaberto, então notei sua presença, por mais que não o tenha visto, tinha certeza que estava ali, e não me importava o que era, por mais estranho que parecesse essa sensação.



Foi quando o Luís me ligou pela ultima vez que eu pude vê-lo finalmente. Eu e o Luís estávamos aos trancos e barrancos por semanas, naquela de altos e baixos, mas os altos não conseguiam mais alcançar a superfície, de tantos baixos existentes entre nós. Foi uma discussão difícil, ambos ja estávamos fartos de tudo que estava acontecendo na nossa vida, não víamos mais como contornar aquela situação e eu acabei tendo um insight que às vezes a gente prolonga algo que não tem mais elasticidade para aguentar os puxões, e quando arrebenta a dor é muito forte, e já estava doendo muito, não imaginava como seria a dor seguinte, então eu desliguei. Tá bom Luís, até. E foi. Chorei bastante no silêncio puro e ingênuo que tinha em todos os cantos daquele apartamento, mas então ouvi algo. Fui até o quarto e me deparei com algo que nunca imaginaria existir, mas estava la o tempo todo, e parecia preocupado, queria ajudar, senti isso. Aproximei, e mesmo esguio, não hesitou. Nos abraçamos, senti o frio de sua pele usurpando o calor da minha, mas não fugi. Ficamos assim por minutos, até que pudesse analisa-lo por completo, e até hoje não consigo descrever com palavras o que ele pudesse significar.



Os dias passavam, e Luís mantinha a incansável luta de tentar me fazer voltar atrás. Mas eu estava forte agora, tinha meu novo amigo me esperando todos os dias após o trabalho, conversávamos sobre muitas coisas. Ele até aprendeu algumas palavras logo na primeira semana. Até mais. Obrigado. Não. Ele olhava para o céu na minha sacada e apontava para as estrelas fascinado pela luz que imanavam, e eu o compreendia pelos seus gestos.



Ele foi crescendo, e quanto maior ficava, mais culto, mais sério se mantinha. Lia Marx, Freud, Dostoievski, bula de remédio e a tabela nutritiva de todos os alimentos que entravam no apartamento. Não falava muito, mas quando abria boca, saíam sempre as mais sábias palavras. Precisava de roupas, acabei comprando um terno, para combinar com a seriedade que exalava por fora de seu corpo, de um ser totalmente indescritível, amável.



Foi quando vi o Luís no caminho de casa que tudo mudou. Conversamos por uns três minutos, e percebemos que nossas vidas tinham sido levadas adiante, superamos. A dor tão grande que senti à meses atrás não passava mais de uma saudade de ver filme juntos, mas daí lembrei que ja tinha companhia para isso. Víamos o por do sol todo sábado quando namorávamos, era sábado e lembramos disso. Engraçado. Ne? e sorriu. Meu coração não saltou pela boca, não senti o chão cair e muito menos tive vontade de sorrir de volta. Mas sorri, concordei e me despedi. No elevador tive a confirmação: Não me via mais apaixonada por Luís, e sim por ele.
Subi, sem demonstrar nenhuma evidência do que havia acabado de descobrir, mas de uma coisa tinha convicção que deveria fazer, deveria assumi-lo para o mundo. Era fácil te-lo em meus braços diariamente dentro do apartamento como uma rapunzel aprisionada para os desejos perversos de uma bruxa, e não o queria assim. Era sábado, o por-do-sol era tão lindo, queria mostra-lo, e o mostrar para o mundo. Minha mãe iria estranhar em um primeiro momento, mas sabia que ambos tinham os mesmos ideais, não tinha medo da rejeição, pois o tinha a tanto tempo que não ligava para opiniões alheias. Eles iriam ter que engolir, querendo ou não.



Peguei os óculos, protetor solar e duas toalhas, enfiei tudo na bolsa de praia e o peguei pela mão. Seus olhos brilhavam pois nunca tinha saído do apartamento. Não tinha outras roupas a não ser o terno que estava todos os dias, mas não achei necessário mudar a vestimenta, iria tomar banho de mar com terno e tudo. Mais emoção. Saímos do prédio, nunca vi tamanha felicidade de uma forma tão singela, talvez até tenha chorado. Só que nesse instante também percebi algo, mas diferente do Luís, não senti a dor do elástico se rompendo. Ele soltou minha mão. E foi. Não tinha asas, porém enquanto sumia, pude vê-lo voar, e como em um sussurro no meu ouvido, escutei a última palavra nova que ele conseguiu aprender a falar, e sozinho.


Adeus.
Estávamos livres.
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