Ela vinha toda quarta-feira, depois do pico do sol. Ela ou ele, não sabia muito bem descrever o gênero das abelhas, pois nunca perguntou diretamente a ela, se era de fato uma senhora, senhorita, moça inocente como pensava, ou era um rapaz que roubava de sua donzela o mais íntimo segredo dentro de seu ser. Não se importava muito se era uma abelha ou zangão, pois mesmo ele ou ela não tinha uma definição do que era de fato. Sabia o que era, mas não sabia qual era, sentia-se assim. Isso de macho e fêmea era coisa de humano, como sempre diziam os outros lá do canto. Só os ouvia, nunca os vira de fato, mas sabia que eram sábios demais para falarem algo que não era verdade. Diziam que existia algo, que nunca tinha visto, mas era tão perigoso e mortal, que rezava para não ver. Ou fazia algo que lembrava o rezar, pois isso também era coisa de humano, desses seres perigosos, porém sabia que faziam isso quando tinham medo de algo, se existisse algo que lhes dessem medo, pois pareciam tão imortais. Rezar fazia com que sentissem-se melhor. Ele, ou ela, para sentir-se melhor, olhava para o lado, e se apaixonava cada vez mais, pouco a pouco, pela linda companhia que tinha.
Não gostava das quartas. Aquela abelha/zangão sempre escolhia sua companhia, e ele podia em nada ajudar. Sentia-se impotente, estático, e realmente era. A abelha vinha, tão sedutora com seu zunzun hipnotizador, fincava seu ferrão de forma tão fria adentro do corpo frágil e delicado, mas nada saia além de pequenos suspiros do ar. Corajosa, continuava ali, imóvel, como se nada acontecera no momento, mas no fundo sabia que ela estava sofrendo, apesar de nunca ter sido escolhido para sofrer, imaginava a dor, como também imaginava o amor que sentia por ela. Na verdade sua vida era imaginar, e olhar em sua volta o que acontecia, e admirar a semelhança que tinha com sua pequena e brava companhia.
Não sabia porquê, mas imaginava, como sempre, que gostava dela por ser sempre escolhida nas quartas por aquela abelha. Não sabia se sentia inveja, ou se ficava triste por não ser ele o escolhido, mas ficava pensando o que ela tinha de mais, o que ele tinha de menos. Passavam-se as semanas, e quanto mais acontecia, mais tinha certeza que não aconteceria com ele. E chorava, o que achava ser lágrimas, pois diziam que era o que saía quando a angústia dentro de si era tanta, que não cabia mais no corpo. E seu corpo era tão frágil, pequeno, e cabia tanta coisa, que nem sabia o que era. Mas não sentia raiva, isso não sentia. Por mais que queria ser como ela, não se achava aos seus pés. Nunca a viu o olhando, mas ela sabia de sua existência, todos sabiam. E isso o confortava. Queria ter coragem para ter um primeiro contato com sua misteriosa companhia, mas isso nem humanos tinham, imagine uma simples margarida.
Até que um dia, numa odiosa quarta-feira, um grande terremoto começou de repente. Foi logo após o assalto da abelha sanguessuga, que foi interrompido por tal movimentação estranha não identificada. Sentiu dor, ou pensou ser dor, porque dava vontade de gritar e parecia não ia acabar nunca. Pensou-se ter morrido, aquilo que os humanos dizem que acontece quando a vida acaba, mas não se sentia diferente, digo, diferente sim, mas ainda vivia. Estava sem chão, ouvia-se coisas estranhas. Demorou para abrir os olhos, viu aquilo que mais temia: Humanos. Vários, aos montes, dos mais diferentes tipos. Olhou para si, sem parte do corpo, talvez tenha perdido duas ou três pétalas. Mal respirava, e ficou mais difícil quando lembrou-se da amada. Procurou em todo canto, por mais iguais que pareciam ser, sabia qual seria aquela doce companhia. Achou-a tão longe, naquele aglomerado de igualdade que sufocava cada vez mais, mas suspirou aliviado por ainda estarem juntos.
Queria poder gritar um "estou aqui" mas estava tão fraco. Queria voltar no tempo, mas não sabia nem por onde começar se voltasse. Ali, logo ali, começou a querer tanta coisa, que nem sabia o que era. Poder ser amado, ser livre, ser humano. Piscava cada vez mais devagar, tentando aproveitar os momentos em que conseguia ficar de olhos abertos para avistar, de longe, a companhia, que não parecia mais tão desejada como antes. Ouviu algo estranho, que parecia um "tananana tan tan nana tan tan", lembrou do que diziam sobre algo chamado música, que acalmava, mas essa só doía. Lembrou do ferrão, da abelha, da dor que nunca sentira e tentou comparar com a que sentia agora, admirou ainda mais sua amada. Pensou consigo que não aguentaria tal dor tantas vezes, queria dizer isso para ela, mas mal conseguia abrir os olhos. Ao ouvir algo parecido com "Danilo e Mariana, declaro-lhes marido e mulher" fechou os olhos, desejou algo que nunca existiu, sonhou com seu condenado amor, e declarou ódio eterno a todas quartas-feiras.
