quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O renascer das flores de setembro

Eu tinha tanta coisa pra te contar ontem. Ontem acabei indo para a cachoeira que nos encontramos, e tudo lá incrivelmente me lembra você.  As pedras conseguem mostrar a força que tive de deixar você levemente se afastar de mim, sem lutar para que pudesse ser resistente. Por mais que quisesse sua presença,  ela não dependia apenas de mim, mas, conto-te que ainda guardo todos os pequenos sentimentos, e que ainda podem crescer um dia, caso queira.
Mas eu sei que não quer, vejo que sua vida vai além de um romance incerto por alguém desconhecido. Eu te conhecia, desde aquele dia na cachoeira em que pudemos mostrar um para o outro tudo que tínhamos, e era tão pouco, ao mesmo tempo tão lindo. Às vezes as pessoas costumam comparar sentimentos com o tempo em que é sentido, não acho isso justo. Temos tempos diferentes, vivi contigo eternidades que deuses invejariam, que eu mesmo invejo por um dia ter vivido. Senti coisas únicas e que agora sinto falta, e que por mais triste que pareça ser, consigo viver sem.
A vontade de estar com você é a mesma, e confesso que escrevo isso com um pouco de ressentimento. Encontrei Rita, ela havia dito que você está sofrendo por alguém,  não sei ao certo se o conheceu antes ou depois de mim,  só espero que não tenha sido durante. Ouvir que você está sofrendo e sentindo algo por outra pessoa foi como uma traição,  uma vez que o motivo do afastamento foi não estar com cabeça para estar com alguém. Minha vida precisa de um rumo, você disse,  lembra? E agora? Onde seu rumo te levou? Tristeza? Pois o meu caminho lhe daria tudo, menos motivos para postar alguma indireta em suas redes sociais.
Envio esse email sem esperanças de um retorno, mas caso queira conversar, meu número não mudou, nem a vontade de viver algumas horas com você. Entenda que isso não é um pedido de namoro, muito menos uma declaração de amor eterno. Digo que estou com vontade de te encontrar de novo, como sempre quis desde que nos vimos. Mas vontades são como as águas dessa cachoeira, podem ir embora e nunca mais voltarem para o memso lugar, e também podem trazer outras águas,  outras coisas, outras vontades. Por agora, só queria saber que raios fiz para receber tanta indiferença e solidão,  e, mais que isso, por que não consigo tirar seus olhos da minha cabeça.
Segue em anexo foto do meu lugar favorito, que você fez questão de estragar.
Att.
Roberto.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Entai

Dimitri era africano. Você começou a usar perfumes fortes porque combinavam com sua música, algumas roupas minhas estão guardadas até hoje pois tem seu cheiro, que era dele. Ele não tinha uma vida muito fácil,  principalmente pela fama. Você o admirava veemente como se cada passo dado pelo cantor fosse seu futuro. Nenhum levou a mim.
Poderia encontrar um verso de cada música que pudesse descrever como nossa relação sobreviveu por tempos.  Agora apenas o whisky consegue me fazer sentir como me sentia com você. Talvez tenhamos tempo para conversar sobre todas essas coisas, mas de que adianta? O que sobraram em mim foram memórias e laços que não conseguem mais desatar, de linhas que cercavam nossos corações.
Nos conhecemos durante o lançamento do oitavo disco de Dimitri. O auge de seu sucesso acontecera nessa época,  e sua imagem reluzia perfeição. Astros, meros humanos como nós,  apenas gostaríamos de ter certa porcentagem de toda sua grandeza. Fomos embalados por meses em suas musicas, e cada uma acabou me lembrando um pedaço de você. O que faço agora é tentar recordar de tudo como um rito, ouvindo suas músicas em um quarto escuro e imaginando momentos que aconteceram, para tentar ficar mais perto de você.
Anos depois, quando já éramos apenas pedaços de músicas espalhados em meu celular, que insistiam em tocar nos piores momentos do dia, Dimitri anunciou seu fim de carreira, e foi a última vez que conversamos.  Você parecia devastado e sem saber o porque de tudo, da vida, seus acontecimentos.  Havia consideração pelo cantor, mas algo mais grave parecia acontecer. Gostaria de ter ajudado, mas sabia que não seria possível.  Lamentei a morte, a ausência,  esperei resposta. Mas os mesmos erros, cometidos não somente por mim, por todos, fazem todos parecerem a mesma pessoa, mesmo que essa se sinta uma nova. Jurei estar mudado, até mesmo propus algo mais leve, mas apenas recebi o agradecimento pelo luto. E no dia da morte de Dimitri,  meu coração fora enterrado também.
Dizem que Dimitri morreu por amor, amor ao mundo,  amor aos seus amores,  amor ao viver. Alguns se surpreendem pela força tida em continuar vivo tanto tempo, com todos seus problemas. Admiro, mas forte mesmo é quem está vivo, tendo centenas de músicas que sugam pouco a pouco de si mesmo, torcendo para não aparecerem, mas querendo um pouco de oxcitocina para alimentar seus monstros.
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