sábado, 17 de setembro de 2016

Undisclosed Desires

Quando você for morrer,  não saberei o que fazer, porque saberei antes. Eu já sei que vai acontecer,  e o mais cômico do conhecimento é a auto-aceitação. Sabemos que não deveria desde antes de acontecer, mas a vida é nosso azar, e viver nossa penitência.  Morrer parece fácil,  nosso masoquismo nos limita. Mas, quando você for morrer, serei frigido, minha inveja se entorpecerá de ocitocina para deixar meus desejos ocultos a tona. Meu silêncio talvez falará mais que todos os anos perdidos com uma afinidade atemporal. Celestial, se não fosse pecaminosa.
Não hesitarei. Não irei decepcionar-te em seu momento de maior consciência,  e também de maior orgulho.  Sei que sua alma clama pela coragem, que seu corpo chora todo dia por fracassar em sua maior ânsia, mesmo com as lágrimas extintas pelo estupro diário. Seus olhos não fecham pelo descanso,  sim pelo cansaço. Mesmo que haja o inferno que lhe é herdado, prefere pousar eternamente no conforto das asas de Lúcifer  que sofrer por aquilo que nunca pediu. Sabe das exigências e consequências de seus fatos, do desfecho daquilo que mal começou, mas, nas melhores das hipóteses,  o que acontecera fora nada que mera tragédia barata. Ninguém foi na estreia, o monólogo não convenceu. As cortinas irão fechar, meu belo,  mas prometo que nas coxias há a paz, respire o mofo, ele conforta.
Talvez de tanto pensar ficamos perdidos, mas sabemos que nosso objetivo está tão longe,  e não sabemos se o percurso da corrida traz a colocação necessária para desistirmos de prosseguir, mas tentamos. Eu tento bem menos que você,  sofro menos na caminhada, mas a cada dia percebo seus calcanhares sangrarem,  e não possuo destreza para ajudá-lo.  Sinto medo de manipular suas vontades, apenas para alimentar meu podre egoísmo.
Quando morrer, permanecerei o mesmo. Tentarei agir como se apagasse cada dia de angústia,  e seguirei o roteiro que foi construído em conjunto. Talvez um dia consiga também, mas o conformismo me infecta cada vez mais. Sinto sua felicidade ao ver meu adoecimento. Um dia iremos compartilhar tudo aquilo que tomaram do ventre, mas, enquanto o tesouro não é achado, talvez percebamos que o que resta é apenas o nada. E, para quem perguntar, você sempre será a pessoa mais corajosa que habitou essa realidade. Be proud.

E, não se esqueça
Quando morrer,
por favor,
Lembre a morte de mim.

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