sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Raiz seca

Talvez eu esteja com fome. Cansado de dar Passos largos, cair sobre buracos em meio ao breu, tentar levantar, cambaleando, febril, tentando alcançar cada degrau para enfim voltar a enxergar um pouco de luz, por fim, cegar-me com tantas verdades. Prefiro fingir que não cheguei a ciência de que nada mais poderá voltar aquele antigo eu que tanto julgava, desprezava e expulsava de mim mesmo. Prefiro tentar mostrar que a realidade é que as pessoas em minha volta não me matam todos os dias, diferentes pessoas, distintas mortes, e um acordar no dia seguinte que mais parece o maior dos desafios que irei enfrentar, porém é a apenas o primeiro deles.

O que começo a sentir em minhas veias traz à minha mente más noticias. Queria poder continuar a interpretar um papel que escolhi para seguir em frente e aparentemente ter uma vida simples, mas fui esmagado pela rotina sufocante de ser homem. Sou homem ao dizer que não amo mais estar abraçado e saber que os arrepios sumiram. Sou homem quando tento admitir para mim mesmo que já era para ter acabado tudo, e voltar atrás depois de dois minutos de confissão interna.

Não sei se chego a ser homem quando desisto, mas tenho certeza de que meu maior ato de humanidade está na desistência. Desisto muito todos os dias, e o mais sofrível é ter de desistir novamente pelos mesmos motivos. Sou homem quando percebo que erro, e também me sinto mais homem quando tenho de omitir os erros e mentir. Vivo eternas mentiras que não consigo mais reverter. O fim chega mais próximo a cada nascer do sol, e, trêmulo,  travo uma disputa com a própria existência.  Tento cada vez mais chegar ao limite da sobrevivência,  e o mais intrigante é perceber que consigo alcançar e ainda respiro.

Nunca aprendi a nadar, mas sinto a sensação de relutar para que meus pulmões continuem funcionando. Já não consigo respirar com a mesma intensidade da minha adolescência,  e ter responsabilidades me afogam cada vez para mais fundo desse oceano. Mesmo sendo mamífero como as baleias, nunca consigo alcançar a superfície,  e cego, sem oxigênio,  permaneço nesse ambiente sem motivos. Guardo na memória os pequenos momentos que senti que poderia pertencer à algo que pudesse valer a pena, e esses pequenos momentos continuam me assombrando toda vez que fecho os olhos, por mais que eles fiquem abertos a maior parte do tempo.

Desculpe, mas não.



Tentei por muito tempo seguir aquele sentimento de que "você precisa de uma vida mais calma","fixar-se em alguém simples tornará sua vida menos complicada", só que a verdade é que pessoas simples tornam meus dias mais sacrificantes que o normal. Fico tentando ensaiar coisas que nunca imaginava que seriam tão difíceis de fazer normalmente. Dormir, acordar, comer, dormir. Sem contar que,  por mais  simples e leve que as pessoas sejam, quando você explode, elas nunca estão ali para conseguir remontar seus pedaços caídos no meio da esquina, depois  de perceber todo o vazio que está submerso à sua alma.

Eu explodi, muitas vezes, e me surpreendo com o que ainda tenho para largar no chão nesse mundo imenso. Quando ver-me na rua, me abrace, tenha calma, tente disfarçar e não comente como estou magro. Sinta o cheiro do perfume misturado com nicotina e diga que nunca sentiu esse cheiro em mim antes,  e que está bom. Sente-se no meio da calçada e comece a lembrar de algum momento passado, tentarei não morrer por dentro de saudades que me afogam. Eu aprendo a nadar, por mais que queira deixar a água desaparecer com tudo que sobrou em mim.
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