sábado, 3 de março de 2018

Verdades jogadas ao vento, de dentro

Todo mundo pede para nascer, senão, nunca entraríamos em um útero, multicelulares, pluricelulares. Não é como um sorteio de loteria, aliás, nem sorteios de loteria são como deveriam realmente ser. Rogar a maldição de estar vivo para outrem é de suma ignorância e hipocrisia humana, o que resta então é entender o porquê, ou apenas aceitar esse porquê. Enquanto lamentamos o nosso nascer, ser, estar, perdemos tempo que poderíamos apreciar nosso nascer, ser, estar. Enquanto achamos que nossa vida pode não estar valendo a pena, não vemos que qualquer situação pode fazer ela valer a pena, pelo motivo de estar acontecendo algo, ou nada. A inércia é contemplada pelo acontecido, o vácuo existe por não existir.
Sentimos perdas, causas trágicas e coisas que nos fazem apegar a algo que beira um divino quase nunca alcançável. Tentamos buscar respostas de tudo, pra tudo, mesmo que já sabemos o que aconteceu, ou queremos nos enganar, ou queremos nos reafirmar. Nunca estamos preparados para aquilo que não nos parece benéfico ao nosso bem estar. E viver em sociedade é uma merda, tão grande que não aguentamos o cheiro, nos escondemos, seja nos nossos quartos, em um quinto de cigarro aceso que não pode ser jogado fora pois é dinheiro jogado fora e acabamos não entrando naquele show, no mercado, atrasamos para aula pra não ter que forçar um sorriso e dizer que está tudo bem, naqueles trinta minutos que não dá pra estudar, não dá pra falar com calma com a nossa tia que insiste em saber se já estamos estabilizados financeiramente. Esqueça o psicológico, ele é sempre deixado para depois, e esse depois, só Deus sabe quando, é só ele tem salvação, para você ver que não era tão grande assim.
Muito nunca é o bastante, e o fim só é reconhecido na morte. Conseguimos um emprego, mas não fomos promovidos ainda. Temos filhos, mas eles se tornaram uns drogados, aquela puta que não parece que saiu de mim, ou aquele vagabundo que prefere ficar na rua com meia dúzia de maconheiros do que ficar em casa zelando pela imagem dos pais que lhe deram carinho, amor, educação e algum dinheiro pra comer, que foi revertido em três ou quatro latas de cerveja. E foi com o dinheiro da comida não ingerida que os filhos encontraram sua felicidade, foi de quarteirão em quarteirão escuro, de uma cidade pequena, que aquela moça pode entender que a vida vale mais que um casamento, e goza amores toda noite por si mesma, e é assim que a vida também tem sentido, mas, mesmo assim, é pouco. Não podemos ser dois, não podemos ser todos. Daí, nos enchemos de algo que completa o vazio em nossas almas, e não vai ser algum entorpecente, algum vinho tinto importado ou Deus que vai conseguir retirar todo esse enxofre que foi colocado embaixo da nossa pele, que sentimos arder onde deveria bater um coração. Algumas cicatrizes não são retiradas nem com cirurgia plástica, mas fazemos, fazemos sim quando da, quando se consegue dinheiro, quando se rouba da mãe, do Estado, da velhinha que estava na esquina, mas o guarda viu e você foi preso, dois anos de detenção, a perda da mãe e mais dois quilos de mancha negra no seu peito. Nada reverte a negatividade do mundo, e o perdão só serve para seguirmos em frente, nunca para trás.
Me sinto sozinho, cada dia mais, mas sei que existem milhares iguais a mim, que cada vez mais se afundam em seu próprio abismo, mas, é preciso e essencial saber voar nessas horas. O céu não tem limites, e saber voar não significa fugir, se esconder ou tentar retirar todo o peso das costas que ganhamos com o tempo. Saber voar é não cair no final do abismo. Saber que sempre podemos descer, com cada olhada que alguém nos dá de desaprovação, de saber que alguém que está do nosso lado e deveria nos apoiar mas mente, que independente de quão fundo seja o poço, ele não tem chão. Podemos cair mais fundo, mas nunca morrer por isso, então, por que não aproveitar a queda livre e sentir o frio da barriga da montanha-russa que é viver?

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