Olho para seus olhos, mas sei que seu olhar não quer dizer nada. Eu escuto, escuto, escuto, mas juro que as únicas palavras que me lembro não são suficientes. Todos sabem que nosso caso é antigo, que se algum de nós dois parar para pagar a conta, ele sai sem calças desse bar. Ela tá pendurada faz tempo, e quem vai acabar pagando sou eu, a conta e o mico, o embaraço e o desperdício de tantos olhares e falares que faltaram para eu dizer que acabou, porque nunca tem o suficiente para eu dizer com clareza que foi alguma coisa. Você não fecha nem as pernas para sentar, imagina todos esses números que nos vem acompanhando, correndo o risco de brigar ali com o dono, tentar pagar com algum favor. Eu ficaria bravo, acabaríamos discutindo. Você gritando algo do tipo PRONTO, VOCÊ QUER FALAR DE VIDA? VOCÊ QUER MESMO FALAR DA VIDA, DA SUA, OU MELHOR, DA MINHA VIDA? NOSSA VIDA? MEU QUERIDO, DE NOSSA NÃO EXISTE NEM ESSA CONTA QUE EU JÁ CANSEI DE OUVIR VOCÊ RECLAMAR. Levanta. Sai da mesa e me deixa sozinho mais uma vez.
Olho para suas mãos, e não sei como dizer que as desejo novamente. É estranho, não sei desde quando combinamos, mas, se existisse um par perfeito nesse mundo, teríamos essa certeza. Você diz sobre seus mistérios, ouço como outra língua, fico dias tentando decifra-los. Eu passo noites tecendo histórias com os novenos embaraçados que você me traz na porta de casa. Cada problema, cada palavra dita, cada palavra não dita, se tornam estrelas no final do meu tear. Temos um universo já, pelo menos temos algo.
O que mais você quer que eu escreva? Quer que eu fale de como sinto medo toda vez que me imagino com cinquenta e tantos anos, e não vejo ninguém ao meu lado? Que tenho medo de escrever aqui sobre todas as coisas que moram comigo, que dormem comigo, e você ler, e pior, compreender, como seus olhos me dizem isso silenciosamente? Como não entendo essa vida de encontros e desencontros que me faz perder o sentido, o motivo e o porquê de tudo que faço ou tento pensar? Quer que eu diga como não entendo o quão fácil e simples parece ser você entrar na minha cabeça, ouvir todos meus pensamentos só de olhar minha expressão, como se minha mente fosse uma casa de praia que você passa um feriado, e deixa a bagunça para eu limpar depois? Minha mente não é simples, minha mente não é fácil, e você faz parecer que sou um mentiroso.
Ao mesmo tempo que brinca com meu coração, sei que sabe cuidá-lo como ninguém, deixo ser seu brinquedo quebrado, esperando conserto, temendo ser trocado. Por mais que eu diga para mim mesmo "Dessa vez é a última", "Chega, basta disso", "Cuide de você mesmo", me vejo sempre no início, naquele primeiro oi tímido que ambos demos, mesmo eu conhecendo todos seus traços e você todos meus truques. Sempre me vejo querendo ver seus olhos como um louco, viajando, correndo, arriscando, querendo, sentindo tudo e todos. "Que essa seja a última", prometo enquanto fecho os olhos, mordo os lábios, aperto minhas mãos contra as costas e tento lembrar porque toda vez que olho para mim, só consigo ver você.