sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Cacto: Uma vida para amar



Ele não entendia. Passara toda a vida caminhando atrás daquilo que todos diziam existir, amor, ele chamava, mas não tinha certeza se aquela palavra seria suficiente para o que sentia de fato que faltava dentro de seu corpo. Mantinha uma vida sozinho, por mais que tentasse conviver com outros seres, era sempre ele, e ele. As estações do ano iam e vinham, dias e noites o perseguiam, mas só o preenchiam, ora sem sono, ora sem animo.

Fora no deserto, pois lá a solidão não era tão fria, mas, mesmo assim, estava pronto para servir de sombra para quem quisesse repousar entre seus braços. O que ganhara? Nenhuma história amiga, apenas desesperados animais em busca de alguns pedaços de seu corpo, que ele dava, em uma oportunidade desesperada de ser um mártir. Mas não morrera, ali estava, prontamente esperando o próximo a retirar um pouco de si, e ir embora. Mesmo assim, não sentia falta daquilo que fora lhe tirado, mas sim daquilo que nunca estivera em seu corpo.

Também passara uma época da primavera em uma floresta bem robusta, repleta de tantos animais e árvores, pares e pares de seres felizes. Via pássaros cantando, sentia até mesmo as flores sorrirem, porém, nunca para ele, e, quando o viam, ou o preenchiam com um vazio em seus rostos, ou corriam, assustados talvez, e o corroíam, mais do que seus pedaços retirados no ambiente arenoso.

Uma vez, avistara um sábio mago em seu caminho, e, com destreza e um pouco de temor, perguntara ao senhor:

- Por que sozinho sou? Por que não consigo encontrar esse tal de amor?

- Meu pequeno, alguns existem apenas para ser- E logo se foi, sem responder a maior de suas dúvidas: Por quê?  Por que continuara a caminhar à procura de algo que já estava cansado de não encontrar? Por que tentar dar o que pensara ser esse amor, se não existia ninguém capaz de recebe-lo?

Foi quando parou.

Mas, ele não parou de procurar, não parou de se perguntar. Foi obrigado a parar pois não tinha mais caminhos a andar. Havia algo mágico, bem abaixo da terra, um espelho capaz de ver o sol, que sempre esteve ali, as nuvens, que sempre o acompanharam, mas, agora havia algo novo. Vira pela primeira vez, sua forma, seu corpo, seu próprio eu, e se apaixonara à primeira vista, mesmo sem os pedaços retirados, não fazia questão, lá estava toda a expressão que aguardara toda uma vida para achar. Aquele corpo dava e queria receber exatamente tudo que ele estava procurando, o amor. E assim, ele caminhou feliz, afundando em sua imensa gratidão, por terminar sua caminhada encontrando sua própria razão de ser.
Share: