Ele não entendia. Passara toda a vida
caminhando atrás daquilo que todos diziam existir, amor, ele chamava, mas não
tinha certeza se aquela palavra seria suficiente para o que sentia de fato que
faltava dentro de seu corpo. Mantinha uma vida sozinho, por mais que tentasse
conviver com outros seres, era sempre ele, e ele. As estações do ano iam e
vinham, dias e noites o perseguiam, mas só o preenchiam, ora sem sono, ora sem
animo.
Fora no deserto, pois lá a solidão não era
tão fria, mas, mesmo assim, estava pronto para servir de sombra para quem
quisesse repousar entre seus braços. O que ganhara? Nenhuma história amiga,
apenas desesperados animais em busca de alguns pedaços de seu corpo, que ele
dava, em uma oportunidade desesperada de ser um mártir. Mas não morrera, ali
estava, prontamente esperando o próximo a retirar um pouco de si, e ir embora. Mesmo
assim, não sentia falta daquilo que fora lhe tirado, mas sim daquilo que nunca
estivera em seu corpo.
Também passara uma época da primavera em uma
floresta bem robusta, repleta de tantos animais e árvores, pares e pares de
seres felizes. Via pássaros cantando, sentia até mesmo as flores sorrirem,
porém, nunca para ele, e, quando o viam, ou o preenchiam com um vazio em seus
rostos, ou corriam, assustados talvez, e o corroíam, mais do que seus pedaços
retirados no ambiente arenoso.
Uma vez, avistara um sábio mago em seu
caminho, e, com destreza e um pouco de temor, perguntara ao senhor:
- Por que sozinho sou? Por que não consigo
encontrar esse tal de amor?
- Meu pequeno, alguns existem apenas para
ser- E logo se foi, sem responder a maior de suas dúvidas: Por quê? Por que continuara a caminhar à procura de
algo que já estava cansado de não encontrar? Por que tentar dar o que pensara
ser esse amor, se não existia ninguém capaz de recebe-lo?
Foi quando parou.
Mas, ele não parou de procurar, não parou de
se perguntar. Foi obrigado a parar pois não tinha mais caminhos a andar. Havia algo
mágico, bem abaixo da terra, um espelho capaz de ver o sol, que sempre esteve
ali, as nuvens, que sempre o acompanharam, mas, agora havia algo novo. Vira pela
primeira vez, sua forma, seu corpo, seu próprio eu, e se apaixonara à primeira
vista, mesmo sem os pedaços retirados, não fazia questão, lá estava toda a
expressão que aguardara toda uma vida para achar. Aquele corpo dava e queria
receber exatamente tudo que ele estava procurando, o amor. E assim, ele
caminhou feliz, afundando em sua imensa gratidão, por terminar sua caminhada
encontrando sua própria razão de ser.