- Você já pensou quando a Terra do Nunca não existir
mais? Para onde você vai? Você já parou para pensar que você pode nunca mais se
acostumar em outro lugar?
Foi assim
que meu coração foi parado pela primeira vez. Nem nas minhas maiores fantasias
eu pensaria que Sininho fizesse essa pergunta, logo depois de ficarmos
imaginando quais animais seriam aqueles nas nuvens. Vejo pelos olhos dela que
não consegue compreender meu descontentamento por ter sido interrompido de um
momento tão leve e sensível para pensar naquilo. Na morte, no fim, em um
recomeço forçado que eu não queria lembrar.
Sempre
protegi a Terra do Nunca com unhas e dentes. Não me senti como seu dono, mas,
sim, como alguém grato por tudo que ela me proporcionou. Pensar na sua
inexistência é como parar de admirar sua vida. Para onde mais eu poderia ir e
me sentir da forma que me sinto hoje? Outra vida não irá me satisfazer, tenho
convicção disso! Eu escolhi estar aqui, todos têm essa escolha! E somos
abraçados pelos campos, pelos mares e por tudo de belo que habita nessa ilha.
Eu não
nasci aqui, e, tive alguns anos sabendo como sou em outro lugar. Hoje, apesar
do tempo que me afastei, sei muito bem que aquele Peter não volta mais. O que
esse novo pequeno homem será quando partir da Terra do Nunca é um mistério.
Talvez eu nunca mais mude, e tenha que viver amarguradamente, pensando na vida
que tive. Talvez eu encontre outra Ilha pelo universo, tão ou mais perfeita que
essa, e nunca mais a lembre. Mas, essa é uma dúvida que não deveria aparecer entre
um elefante e um leão no céu.
Me pergunto
o porquê de isso ter acontecido. Ela não sente tudo aquilo que a Terra do nunca
me faz sentir? Ela não quer estar aqui? Eu sei que todo mundo pode ir para
todos os lugares, e o universo é para ser conhecido. Porém, sinto como se tivesse
encontrado minha terra natal. Meu lar. Onde eu quero criar raízes. Onde eu
posso abrir minhas asas e voar, sem saber ou precisar pensar no que os outros
pensarão.
Por que
pensar na morte, no momento em que mais me sinto vivo? Por que lembrar da
existência da solidão, quando o amor percorre todas as minhas veias? Por que
eu, logo eu, tenho de fazer planos infalíveis, pensar em todas as
possibilidades possíveis, para não sofrer com o fracasso? Eu não tenho medo de
sofrer. Do mesmo jeito que estou chorando aqui, só de pensar que minha Terra do
Nunca pode não existir um dia (por mais que ela sempre existirá em minha alma),
chorarei depois, caso isso aconteça de fato. Conseguem entender? É
desnecessário. Eu sei que a morte existe, sei que a solidão tem de ser sentida.
Mas não quero parar de maravilhar todos os cantos desse lugar com esse
pensamento bobo, que acabou consumindo toda minha alegria, me deixando com
medo.
Sei que
Sininho não fez por mal, e, vejo o desespero em seus chiliques por ter
percebido que havia falado demais. Não a
culpo, porém, isso não me tira o direito de questionar o seu questionamento.
Mas, diferente das outras vezes, não gritei, não quis mostrar que seu
pensamento estava errado, que ela estava sendo contraditória. Outro dia mesmo,
enquanto voltávamos para cá depois de jogar o Capitão em meio à um mar cheio de
tubarões e deixa-lo à mercê da sorte, ela dizia enquanto perambulava entre o
céu: “Precisamos viver o agora, só assim nos sentiremos felizes!” E, nesse
agora dela, ela está me fazendo pensar em um amanhã que talvez não exista. Pelo
menos dentro da minha vida, ele nunca existirá. Pensar que talvez isso seja uma
certeza dentro da sua cabeça, me entristece. Mas, a primeira palavra é que
conta, é o que dizem. Me prenderei a isso.
E o que fiz
quando me dei conta que estava pensando demais, e nenhuma palavra havia saído da
minha boca? Voei, voei para bem longe, voei antes que ela me forçasse a falar
algo. Fiquei em silêncio, e aqui estou, pensando até agora em uma pergunta de
dois segundos. Estou aqui escondido em uma gruta, esperando a coragem aparecer
para assim responder a Sininho, que deve estar preocupada. Quem sabe eu escreva
alguma carta, pedindo desculpas, e mostrando que às vezes não precisamos pensar
muito no amanhã. Viver já é uma preparação para aquilo que pode ou não vir.
Talvez coloque debaixo da folha que ela faz de travesseiro, e me esconda no
mesmo lugar que ela sempre me procura. E assim, seguimos vivendo felizes,
enquanto alguns monstros fantasiados de dúvidas ainda precisam ser derrotados.
