terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Adeus Terra do Nunca

 

- Você já pensou quando a Terra do Nunca não existir mais? Para onde você vai? Você já parou para pensar que você pode nunca mais se acostumar em outro lugar?

 

 

Foi assim que meu coração foi parado pela primeira vez. Nem nas minhas maiores fantasias eu pensaria que Sininho fizesse essa pergunta, logo depois de ficarmos imaginando quais animais seriam aqueles nas nuvens. Vejo pelos olhos dela que não consegue compreender meu descontentamento por ter sido interrompido de um momento tão leve e sensível para pensar naquilo. Na morte, no fim, em um recomeço forçado que eu não queria lembrar.

Sempre protegi a Terra do Nunca com unhas e dentes. Não me senti como seu dono, mas, sim, como alguém grato por tudo que ela me proporcionou. Pensar na sua inexistência é como parar de admirar sua vida. Para onde mais eu poderia ir e me sentir da forma que me sinto hoje? Outra vida não irá me satisfazer, tenho convicção disso! Eu escolhi estar aqui, todos têm essa escolha! E somos abraçados pelos campos, pelos mares e por tudo de belo que habita nessa ilha.

Eu não nasci aqui, e, tive alguns anos sabendo como sou em outro lugar. Hoje, apesar do tempo que me afastei, sei muito bem que aquele Peter não volta mais. O que esse novo pequeno homem será quando partir da Terra do Nunca é um mistério. Talvez eu nunca mais mude, e tenha que viver amarguradamente, pensando na vida que tive. Talvez eu encontre outra Ilha pelo universo, tão ou mais perfeita que essa, e nunca mais a lembre. Mas, essa é uma dúvida que não deveria aparecer entre um elefante e um leão no céu.

Me pergunto o porquê de isso ter acontecido. Ela não sente tudo aquilo que a Terra do nunca me faz sentir? Ela não quer estar aqui? Eu sei que todo mundo pode ir para todos os lugares, e o universo é para ser conhecido. Porém, sinto como se tivesse encontrado minha terra natal. Meu lar. Onde eu quero criar raízes. Onde eu posso abrir minhas asas e voar, sem saber ou precisar pensar no que os outros pensarão.

Por que pensar na morte, no momento em que mais me sinto vivo? Por que lembrar da existência da solidão, quando o amor percorre todas as minhas veias? Por que eu, logo eu, tenho de fazer planos infalíveis, pensar em todas as possibilidades possíveis, para não sofrer com o fracasso? Eu não tenho medo de sofrer. Do mesmo jeito que estou chorando aqui, só de pensar que minha Terra do Nunca pode não existir um dia (por mais que ela sempre existirá em minha alma), chorarei depois, caso isso aconteça de fato. Conseguem entender? É desnecessário. Eu sei que a morte existe, sei que a solidão tem de ser sentida. Mas não quero parar de maravilhar todos os cantos desse lugar com esse pensamento bobo, que acabou consumindo toda minha alegria, me deixando com medo.

Sei que Sininho não fez por mal, e, vejo o desespero em seus chiliques por ter percebido que havia falado demais.  Não a culpo, porém, isso não me tira o direito de questionar o seu questionamento. Mas, diferente das outras vezes, não gritei, não quis mostrar que seu pensamento estava errado, que ela estava sendo contraditória. Outro dia mesmo, enquanto voltávamos para cá depois de jogar o Capitão em meio à um mar cheio de tubarões e deixa-lo à mercê da sorte, ela dizia enquanto perambulava entre o céu: “Precisamos viver o agora, só assim nos sentiremos felizes!” E, nesse agora dela, ela está me fazendo pensar em um amanhã que talvez não exista. Pelo menos dentro da minha vida, ele nunca existirá. Pensar que talvez isso seja uma certeza dentro da sua cabeça, me entristece. Mas, a primeira palavra é que conta, é o que dizem. Me prenderei a isso.

E o que fiz quando me dei conta que estava pensando demais, e nenhuma palavra havia saído da minha boca? Voei, voei para bem longe, voei antes que ela me forçasse a falar algo. Fiquei em silêncio, e aqui estou, pensando até agora em uma pergunta de dois segundos. Estou aqui escondido em uma gruta, esperando a coragem aparecer para assim responder a Sininho, que deve estar preocupada. Quem sabe eu escreva alguma carta, pedindo desculpas, e mostrando que às vezes não precisamos pensar muito no amanhã. Viver já é uma preparação para aquilo que pode ou não vir. Talvez coloque debaixo da folha que ela faz de travesseiro, e me esconda no mesmo lugar que ela sempre me procura. E assim, seguimos vivendo felizes, enquanto alguns monstros fantasiados de dúvidas ainda precisam ser derrotados.




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