terça-feira, 18 de maio de 2021

MOLÉSTIA SOCIAL

 

Vejo todo o poder e fantasia escorrendo por entre os dedos daqueles que sugam pouco a pouco tudo que consegui reunir de bom nos anos que vivi nessa terra. Vejo todo meu esforço significando menos do que o grande nada que ecoa em nossos dias. Ultimamente venho soltando chamas pelos olhos, por querer cegar-me de  toda maldade que existe no ser humano, se é que podemos nos chamar assim ainda. Homens que não conseguem mais enxergar humanidade nos outros, e, por tabela, parece que estou me tornando uma dessas aberrações cobertas pelo cinza do concreto de seus prédios, que juram e fazem questão de gritar aos sete ventos que foram feitos pela luz Divina, do que acredito não existir mais, pois vejo todo o poder e fantasia escorrendo nessas mãos.

Sinto meu corpo perdendo a sensibilidade do afeto, a cada perca afetiva que acontece. Ando me sentindo ranzinza, e, como um senhor prematuro, decidi fugir de tudo que me fizesse sentir pior. Mas, quanto mais eu corro, mais cansado me sinto por ter de correr. Sinto medo, medo de que o amor que protejo de toda sombra e monstruosidade de tudo que permeia  as coisas boas desse nosso mundo desapareça, que eu não sinta mais essa beleza que preservo. Felizmente, não sou único, e, os poucos sobreviventes, carregam consigo esse mesmo amor, sinto ao tocar seus corpos. Abrem e fecham os olhos ao meu lado, mantendo o que restou de verdadeiro em meu sentir, e, sei que no deles também. Por outro lado, essa certeza não apaga o medo que sinto de perder o que ainda me faz querer fugir, faz-me sentir razinza, porque tudo isso é proteção, uma casca psicológica que uso para não me tornar pior.

Tornei-me uma ostra, onde tento transformar a sujeira do mundo e das pessoas em algo belo. Porém, em meio a tanta poluição, mais me machuco do que crio beleza. Ando pelas ruas como uma tartaruga acidentada por plásticos em decomposição. Forte, protejo em minha fortaleza tudo que sinto valer a pena, mesmo que seja apenas um ou dois sorrisos que vi antes de dormir.

Ouço que eu deveria me contentar com a grande quantidade de poucos ditos até aqui, como todas as outras metáforas de uma vida simples e comum que possuo. Ouço também que eu deveria agradecer pelo que acontece na vida, pois tudo é aprendizado e às vezes podemos tirar algo de bom em todas as complicações que aparecem. Só gostaria de ouvir que esse meu esforço para aguardar tranquilidade está me levando para algo além de paranoias e palavras frias. Almejo que meus ouvidos conduzam lentamente palavras que não sejam apenas de conforto platônico. Você já sentiu vontade de ouvir algo e não acreditar que é verdade de tão bom? Não gostaria de conhecer a intensidade do oposto.

Pareço pessimista, mas, a realidade se tornou morna, irreal, um ato constante de sobrevivência, e, aprender a sobreviver é aprender a sacrificar, sem remorso. Sentimentos. Lembranças. Pessoas. Nós mesmos. Seguimos em dicotomias e discrepâncias que envenenam até os mais bondosos que pousam por aqui.

Faz dias que não sei como concluir pensamentos, ou textos, pois tudo que passa pela minha cabeça é não saber como será amanhã. E também, pouco importa, não é a imprevisibilidade o problema, é como o mundo e as pessoas estão. A única coisa que tenho certeza é de como eu não quero ser amanhã. Minha esperança é guiada por essa luz, e nenhum ser inumano, nenhuma falta de sentir ou ouvir irá conseguir apaga-la.

 

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terça-feira, 4 de maio de 2021

POR QUE VOCÊ NÃO ME CHAMA DE AMOR?

 

 

“Eu quero cantarolar com os pássaros em uma segunda de manhã ao caminho do trabalho, por ter recebido a mensagem mais simples e sincera, de alguém que, poderia acordar e dormir na mesma cama que a minha por anos, mas ainda veria uma menina que tem medos, e precisa segurar-se em credos próprios. Uma tola, prestes a cair em qualquer palavra doce que pudesse ler. Quero padres, daminhas de honra e minha mãe chorando ao meu lado no altar, por mais que eu nunca tenha visto minha mãe chorar algum dia, e, se existisse algum Deus, eu estaria do lado oposto dele. Quero alguém capaz de amar esse meu lado oposto da Glória de Jesus também.”

 

 

Foi isso que escrevi no meu diário. Dezesseis anos, jurando que sabia o que era amor e ser amada. Acho que todos já fomos ou somos assim. Em todos existe uma criança interna que grita por atenção, por tudo de mais brega e egoísta que possa parecer, porque crianças não percebem dicotomias. E, eu, logo eu, Valéria Cristina, não sou nenhuma alienígena para sair da estatística cortante, da inevitável constatação, da verdade absoluta. Temos que aprender a lidar com nossas próprias ilusões. Temos que conviver com essas crianças internas, que eternamente irão deixar nossa mente em conflito.

Quando fico pensando bastante sobre o que espero de alguém, ou de mim mesma quando estou com alguém, viajo, vou para lugares que já fui com alguns pequenos casos, lembro-me de amores que, se dependessem de mim, ainda existiriam dentro do meu coração. É sobre isso que quero falar com você que está lendo silenciosamente em sua cabecinha vazia agora. Como todo clichê chiclete e  superficial pode encaixar na sua vida quando você está feliz ou amando, os clichês negativos também servem como uma luva quando esse tipo de pensamento permeia em seus sonhos. Não depende só de você. Quando um não quer, dois não brigam. Quando um só quer, esse fica pensando em hipóteses e teorias malucas, e assim permanece por horas, dias.

Para constatar aquilo que minha mente sussurra, às vezes crio experiências malucas e invisíveis, e, gostaria de usar aqui para um pedido de desculpas. Não digo que são experiências de fato, porque não são intencionais. Como nas vezes que aguardo ouvir um eu te amo espontâneo, aquele que aparece de repente. Ele existe, porque já vi tantos outros o receberem. Nunca cheguei a um limite, sempre fui a primeira a dizer, antes que minha angústia me asfixiasse. Ou, como o título do que está lendo lhe traz, as vezes que esperei por alguém capaz de me chamar de Amor. Todas em vão, sou um fracasso como uma cientista.

É preciso falar de amor, falar do amor, da forma que ele deveria ser dado à todos. Amor é quando alguém decide não ir embora e continuar na onde o companheiro está, mesmo que tenha a melhor oportunidade de uma pessoa, porém, não duas, e isso não a deixa infeliz. Amor é quando percebo um casal se tratando cordialmente, mesmo quando nitidamente estão frágeis, tristes um com o outro. Amor é um sentimento acima, mas não arbitrário. Amor é o que busco na vida, e, não deveria ser tão difícil assim de ter. Todos têm. E, eu espero que no final desse texto eu consiga convencer pelo menos uma pessoa do valor e da força de dar e receber o amor.

Eu tenho um certo problema com titulações, acho que elas precisam existir. Tenho necessidade de saber o que sou para alguém, são pequenos egoísmos que quis manter em minha essência. Na minha cabeça, desde menina, eu queria alguém que pudesse me chamar de amor. Antes, um namoradinho do colegial, agora, estou em um nível de desespero que se o porteiro do meu prédio me chamar de amor, eu choro e digo que aceito.

Os amores vieram, eu que nunca fui. José dizia que ficaria estranho se me chamasse de amor, pois era como ele chamava sua esposa. Antônio tinha trauma de seus relacionamentos antigos, e não queria rotular o que tínhamos, nem a mim. Pietro foi mais longe, dizia que amor era um sentimento muito grandioso e que levava tempo, um tempo que os seis meses que moramos juntos no mesmo teto não o fez perceber que às vezes ele me amava mais do que eu mesma. Teve até um tempo que me aventurei em novos tipos de relacionamentos, mas, como eu nunca fui a primeira a existir naquela relação ou situação, essa coisa de amor não cabia em mim.

O tempo passa e, às vezes acordo triste, fico em silêncio o resto do dia, e as pessoas à minha volta não conseguem entender que eu só busco o mínimo, pois nunca o tive. Sou uma anormal por isso? Talvez eu tenha enlouquecido. Eu sei que já fui amada, já me senti assim, muitas e muitas vezes. O problema é que, amor é algo que precisamos constantemente entender nas entrelinhas, dentro de nós mesmos? Por que nos filmes e em todo lugar que eu vejo, as pessoas não tem dificuldade em verbalizar o que sentem, e, comigo é sempre uma linha em branco, sempre com sacrifícios?

Pode ser brega, em um carro de som em frente à padaria que vou buscar pão todo dia que estou de ressaca. Pode ser em um jantar românticos depois de comemorarmos mais um ano juntos. Pode ser ao acordar e ver que já preparei o café enquanto dormia. Pode ser em qualquer ocasião, não tenho mais idade para pensar em cavalos brancos ou em padrões de amor, eu só quero tê-lo.

Dizer “só” é uma falácia, perto de toda confusão que fica em mim quando sinto sua ausência.




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