Nunca tive medo. No começo não houve palavras, e quando digo começo, foram dias, meses e mais meses de um silêncio puro, ingênuo , que fez com que ele parecesse uma criança querendo descobrir o mundo que estava a sua volta, mas ainda na barriga da mãe. Não o via, mas sabia que ele estava por lá, em algum lugar escondido na penumbra do quarto vazio do meu apartamento. Lembro que estava dormindo quando escutei um barulho vindo de lá, mas, por algum motivo permaneci na cama e voltei a dormir, até que no dia seguinte o quarto estava todo bagunçado e o guarda-roupas entreaberto, então notei sua presença, por mais que não o tenha visto, tinha certeza que estava ali, e não me importava o que era, por mais estranho que parecesse essa sensação.
Foi quando o Luís me ligou pela ultima vez que eu pude vê-lo finalmente. Eu e o Luís estávamos aos trancos e barrancos por semanas, naquela de altos e baixos, mas os altos não conseguiam mais alcançar a superfície, de tantos baixos existentes entre nós. Foi uma discussão difícil, ambos ja estávamos fartos de tudo que estava acontecendo na nossa vida, não víamos mais como contornar aquela situação e eu acabei tendo um insight que às vezes a gente prolonga algo que não tem mais elasticidade para aguentar os puxões, e quando arrebenta a dor é muito forte, e já estava doendo muito, não imaginava como seria a dor seguinte, então eu desliguei. Tá bom Luís, até. E foi. Chorei bastante no silêncio puro e ingênuo que tinha em todos os cantos daquele apartamento, mas então ouvi algo. Fui até o quarto e me deparei com algo que nunca imaginaria existir, mas estava la o tempo todo, e parecia preocupado, queria ajudar, senti isso. Aproximei, e mesmo esguio, não hesitou. Nos abraçamos, senti o frio de sua pele usurpando o calor da minha, mas não fugi. Ficamos assim por minutos, até que pudesse analisa-lo por completo, e até hoje não consigo descrever com palavras o que ele pudesse significar.
Os dias passavam, e Luís mantinha a incansável luta de tentar me fazer voltar atrás. Mas eu estava forte agora, tinha meu novo amigo me esperando todos os dias após o trabalho, conversávamos sobre muitas coisas. Ele até aprendeu algumas palavras logo na primeira semana. Até mais. Obrigado. Não. Ele olhava para o céu na minha sacada e apontava para as estrelas fascinado pela luz que imanavam, e eu o compreendia pelos seus gestos.
Ele foi crescendo, e quanto maior ficava, mais culto, mais sério se mantinha. Lia Marx, Freud, Dostoievski, bula de remédio e a tabela nutritiva de todos os alimentos que entravam no apartamento. Não falava muito, mas quando abria boca, saíam sempre as mais sábias palavras. Precisava de roupas, acabei comprando um terno, para combinar com a seriedade que exalava por fora de seu corpo, de um ser totalmente indescritível, amável.
Foi quando vi o Luís no caminho de casa que tudo mudou. Conversamos por uns três minutos, e percebemos que nossas vidas tinham sido levadas adiante, superamos. A dor tão grande que senti à meses atrás não passava mais de uma saudade de ver filme juntos, mas daí lembrei que ja tinha companhia para isso. Víamos o por do sol todo sábado quando namorávamos, era sábado e lembramos disso. Engraçado. Ne? e sorriu. Meu coração não saltou pela boca, não senti o chão cair e muito menos tive vontade de sorrir de volta. Mas sorri, concordei e me despedi. No elevador tive a confirmação: Não me via mais apaixonada por Luís, e sim por ele.
Subi, sem demonstrar nenhuma evidência do que havia acabado de descobrir, mas de uma coisa tinha convicção que deveria fazer, deveria assumi-lo para o mundo. Era fácil te-lo em meus braços diariamente dentro do apartamento como uma rapunzel aprisionada para os desejos perversos de uma bruxa, e não o queria assim. Era sábado, o por-do-sol era tão lindo, queria mostra-lo, e o mostrar para o mundo. Minha mãe iria estranhar em um primeiro momento, mas sabia que ambos tinham os mesmos ideais, não tinha medo da rejeição, pois o tinha a tanto tempo que não ligava para opiniões alheias. Eles iriam ter que engolir, querendo ou não.
Peguei os óculos, protetor solar e duas toalhas, enfiei tudo na bolsa de praia e o peguei pela mão. Seus olhos brilhavam pois nunca tinha saído do apartamento. Não tinha outras roupas a não ser o terno que estava todos os dias, mas não achei necessário mudar a vestimenta, iria tomar banho de mar com terno e tudo. Mais emoção. Saímos do prédio, nunca vi tamanha felicidade de uma forma tão singela, talvez até tenha chorado. Só que nesse instante também percebi algo, mas diferente do Luís, não senti a dor do elástico se rompendo. Ele soltou minha mão. E foi. Não tinha asas, porém enquanto sumia, pude vê-lo voar, e como em um sussurro no meu ouvido, escutei a última palavra nova que ele conseguiu aprender a falar, e sozinho.
Adeus.
Estávamos livres.