Talvez eu esteja com fome. Cansado de dar Passos largos, cair sobre buracos em meio ao breu, tentar levantar, cambaleando, febril, tentando alcançar cada degrau para enfim voltar a enxergar um pouco de luz, por fim, cegar-me com tantas verdades. Prefiro fingir que não cheguei a ciência de que nada mais poderá voltar aquele antigo eu que tanto julgava, desprezava e expulsava de mim mesmo. Prefiro tentar mostrar que a realidade é que as pessoas em minha volta não me matam todos os dias, diferentes pessoas, distintas mortes, e um acordar no dia seguinte que mais parece o maior dos desafios que irei enfrentar, porém é a apenas o primeiro deles.
O que começo a sentir em minhas veias traz à minha mente más noticias. Queria poder continuar a interpretar um papel que escolhi para seguir em frente e aparentemente ter uma vida simples, mas fui esmagado pela rotina sufocante de ser homem. Sou homem ao dizer que não amo mais estar abraçado e saber que os arrepios sumiram. Sou homem quando tento admitir para mim mesmo que já era para ter acabado tudo, e voltar atrás depois de dois minutos de confissão interna.
Não sei se chego a ser homem quando desisto, mas tenho certeza de que meu maior ato de humanidade está na desistência. Desisto muito todos os dias, e o mais sofrível é ter de desistir novamente pelos mesmos motivos. Sou homem quando percebo que erro, e também me sinto mais homem quando tenho de omitir os erros e mentir. Vivo eternas mentiras que não consigo mais reverter. O fim chega mais próximo a cada nascer do sol, e, trêmulo, travo uma disputa com a própria existência. Tento cada vez mais chegar ao limite da sobrevivência, e o mais intrigante é perceber que consigo alcançar e ainda respiro.
Nunca aprendi a nadar, mas sinto a sensação de relutar para que meus pulmões continuem funcionando. Já não consigo respirar com a mesma intensidade da minha adolescência, e ter responsabilidades me afogam cada vez para mais fundo desse oceano. Mesmo sendo mamífero como as baleias, nunca consigo alcançar a superfície, e cego, sem oxigênio, permaneço nesse ambiente sem motivos. Guardo na memória os pequenos momentos que senti que poderia pertencer à algo que pudesse valer a pena, e esses pequenos momentos continuam me assombrando toda vez que fecho os olhos, por mais que eles fiquem abertos a maior parte do tempo.
Desculpe, mas não.
Tentei por muito tempo seguir aquele sentimento de que "você precisa de uma vida mais calma","fixar-se em alguém simples tornará sua vida menos complicada", só que a verdade é que pessoas simples tornam meus dias mais sacrificantes que o normal. Fico tentando ensaiar coisas que nunca imaginava que seriam tão difíceis de fazer normalmente. Dormir, acordar, comer, dormir. Sem contar que, por mais simples e leve que as pessoas sejam, quando você explode, elas nunca estão ali para conseguir remontar seus pedaços caídos no meio da esquina, depois de perceber todo o vazio que está submerso à sua alma.
Eu explodi, muitas vezes, e me surpreendo com o que ainda tenho para largar no chão nesse mundo imenso. Quando ver-me na rua, me abrace, tenha calma, tente disfarçar e não comente como estou magro. Sinta o cheiro do perfume misturado com nicotina e diga que nunca sentiu esse cheiro em mim antes, e que está bom. Sente-se no meio da calçada e comece a lembrar de algum momento passado, tentarei não morrer por dentro de saudades que me afogam. Eu aprendo a nadar, por mais que queira deixar a água desaparecer com tudo que sobrou em mim.