Nada é por acaso. Leio essa frase todos os dias
quando acordo, está escrita na parede do meu quarto. Já tentei tirar com água,
vinagre, álcool. Tudo em vão, nada é por acaso. Eu poderia ter passado alguma
tinta da mesma cor da parede no local, uma vez que o imóvel não me pertence,
tanto quanto a maioria das coisas as quais tomo posse na vida. Ultimamente,
tenho bastante tempo para pensar na origem do alerta messiânico disfarçado de
frase motivacional, e, minhas teorias me levaram a crer que o aviso foi obra de
um antigo inquilino, com intuito de eternizar sua visão de mundo na mente dos
seus iguais. Pessoas sem terra e sem história se conhecem, mesmo nunca tendo se
encontrado. Mas, se nada é por acaso, eu deveria alterar o destino? Pois ali
deixei, e, me mantenho deixando as coisas como estão desde então. Até mesmo o
mundo tomou a mesma decisão.
Lá pelas dez da manhã, penso em minha vida como
um longa-metragem, e, na verdade, sou um herói derrotado vivendo apenas dentro
dos olhos de alguém. Será que estou dentro da História de um próximo Boyhood?
Com menos investimento, mais sarcasmo e uma incerteza enorme de qual fim
tomaram. Poderiam ter colocado alguns alienígenas, alguma viagem espiritual de
evolução, colocando assim qualquer pessoa mediana com inveja. Estou cheio das
suposições contadas a mim, cheio dessa esperança vã que me fazem sentir por
obrigação, pois não há outra coisa para sentir no momento. Não conheço outros
sentimentos além daqueles imaginados para esse personagem no qual fui imaginado.
Ou talvez seja algum tipo de jogo futurista,
porque eu sinto estar sendo controlado por uma força maior, capaz de me deixar
inerte nesse papel arquitetado para o meu avatar. Sinto o ópio pelas minhas
veias, responsável pela minha falta de reação à todas as novas lutas que tenho
de enfrentar. Além do mais, elas não dependem só de mim para serem ganhas. Até
mesmo o nascimento desses pensamentos pode ter sido orquestrado por alguém,
nada é por acaso. Quem sabe, algum dia, descubro que, depois de algumas
centenas de anos, o homem foi capaz de criar um sistema capaz de fazer você
sentir tudo, sem estar vivendo aquilo em seus ossos.
Ter ciência de estar preso num mundo fictício doeria
menos do que sentir a certeza de estar vivendo uma realidade tenebrosa. Ao
invés de liberdade, vivo uma desesperadora eternidade, uma nova prisão. Por
menor que seja a quantidade de dias e meses aos quais estou enclausurado nesse
nível mais destrutivo de viver, repleto de doenças invisíveis e mortais,
políticos carniceiros e uma sociedade totalmente alienada e agressiva e
hipócrita, eu não consigo mais ver o fim, não consigo enxergar uma mudança sem
mortes eminentes, de inocentes ou até mesmo a minha.
E, enquanto esses pensamentos me consomem, o
dia se vai entre meus dedos. Faço tudo conforme o script mental sussurrado em
meus ouvidos. Escovo os dentes mais de três vezes ao dia. Tomo banho, faço
minhas refeições. Leio as notícias porque, eu posso duvidar da realidade,
porém, fechar os olhos para ela não é uma opção. Sou prestativo sempre quando
me é requisitado ser. Jogo ao universo frases de efeito diariamente, esperando
ele me devolver todas, de forma concreta, na mesma intensidade. Peço um fim
diferente. Rogo pela paz interna a qual foi substituída por um vazio.
Também penso em amor, apesar da dificuldade de
imaginar um em tempos de cólera. Daqui cinco anos eu posso estar casado,
morando em um lugar que não tenha um lembrete mórbido no meu quarto, o qual
tenho medo de ignorar. Alguém capaz de amar minhas personas, ou melhor, o resultado
de todo esse teste diabólico imposto a mim. Ele irá estar comigo em todos os
momentos. Às vezes, imagino uma cena cotidiana. Uma pessoa sem rosto ao meu
lado, me acompanhando. Sinto ela feliz por estar compartilhando aquele momento
comigo. Uma quinta-feira. Um café da manhã. Um episódio de uma série visto no
fim da tarde, depois de um dia de trabalho que vai para conta do esquecimento.
Não precisamos ver para sentir essas coisas, para sentir gratidão. E eu sentia,
vindo daquele corpo sem rosto na minha imaginação, não me deixando sozinho, e,
eu devolvia o sentimento na mesma proporção.
Tento fazer minha mente trabalhar coisas as
quais considero saudáveis, para alimentar menos essa ideia de estar vivendo em
uma Matrix doentia, e, quando vejo, estou deitado na minha cama, passando da
hora de dormir novamente. Dormir pouco e mal foi algo adquirido ao longo dos
dias iguais, completando o combo de novas mesmas coisas concluídas como um
roteiro de um demente internado em uma clínica psiquiátrica. Tomo as pílulas,
compareço nas terapias. Lá, eles não têm mais noção da realidade. Lá, eles
vivem tentando achar um significado para a vida. Um filme sem começo ou meio ou
fim, apenas uma cena na qual acaba e começa, acaba e começa, mas nunca acaba. O
amor deles também não tem rosto? Gostaria muito de ter criado todo o exposto
até aqui de fantasias, resultado apenas de uma imaginação fértil, exemplos
distantes da minha realidade. Mas a única mentira contada a você é o que disse
estar na parede, que, por coincidência, ou ironia, é de todo branca.
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| Figura 1: White Cube. Disponível em < http://ttnotes.com/white-cube.html#gal_post_30248_white-cube-london-5.jpg> Acesso em 31 de jul. de 2020. |

