sexta-feira, 31 de julho de 2020

Pandêmico


Nada é por acaso. Leio essa frase todos os dias quando acordo, está escrita na parede do meu quarto. Já tentei tirar com água, vinagre, álcool. Tudo em vão, nada é por acaso. Eu poderia ter passado alguma tinta da mesma cor da parede no local, uma vez que o imóvel não me pertence, tanto quanto a maioria das coisas as quais tomo posse na vida. Ultimamente, tenho bastante tempo para pensar na origem do alerta messiânico disfarçado de frase motivacional, e, minhas teorias me levaram a crer que o aviso foi obra de um antigo inquilino, com intuito de eternizar sua visão de mundo na mente dos seus iguais. Pessoas sem terra e sem história se conhecem, mesmo nunca tendo se encontrado. Mas, se nada é por acaso, eu deveria alterar o destino? Pois ali deixei, e, me mantenho deixando as coisas como estão desde então. Até mesmo o mundo tomou a mesma decisão.

Lá pelas dez da manhã, penso em minha vida como um longa-metragem, e, na verdade, sou um herói derrotado vivendo apenas dentro dos olhos de alguém. Será que estou dentro da História de um próximo Boyhood? Com menos investimento, mais sarcasmo e uma incerteza enorme de qual fim tomaram. Poderiam ter colocado alguns alienígenas, alguma viagem espiritual de evolução, colocando assim qualquer pessoa mediana com inveja. Estou cheio das suposições contadas a mim, cheio dessa esperança vã que me fazem sentir por obrigação, pois não há outra coisa para sentir no momento. Não conheço outros sentimentos além daqueles imaginados para esse personagem no qual fui imaginado.

Ou talvez seja algum tipo de jogo futurista, porque eu sinto estar sendo controlado por uma força maior, capaz de me deixar inerte nesse papel arquitetado para o meu avatar. Sinto o ópio pelas minhas veias, responsável pela minha falta de reação à todas as novas lutas que tenho de enfrentar. Além do mais, elas não dependem só de mim para serem ganhas. Até mesmo o nascimento desses pensamentos pode ter sido orquestrado por alguém, nada é por acaso. Quem sabe, algum dia, descubro que, depois de algumas centenas de anos, o homem foi capaz de criar um sistema capaz de fazer você sentir tudo, sem estar vivendo aquilo em seus ossos.

Ter ciência de estar preso num mundo fictício doeria menos do que sentir a certeza de estar vivendo uma realidade tenebrosa. Ao invés de liberdade, vivo uma desesperadora eternidade, uma nova prisão. Por menor que seja a quantidade de dias e meses aos quais estou enclausurado nesse nível mais destrutivo de viver, repleto de doenças invisíveis e mortais, políticos carniceiros e uma sociedade totalmente alienada e agressiva e hipócrita, eu não consigo mais ver o fim, não consigo enxergar uma mudança sem mortes eminentes, de inocentes ou até mesmo a minha.

E, enquanto esses pensamentos me consomem, o dia se vai entre meus dedos. Faço tudo conforme o script mental sussurrado em meus ouvidos. Escovo os dentes mais de três vezes ao dia. Tomo banho, faço minhas refeições. Leio as notícias porque, eu posso duvidar da realidade, porém, fechar os olhos para ela não é uma opção. Sou prestativo sempre quando me é requisitado ser. Jogo ao universo frases de efeito diariamente, esperando ele me devolver todas, de forma concreta, na mesma intensidade. Peço um fim diferente. Rogo pela paz interna a qual foi substituída por um vazio.

Também penso em amor, apesar da dificuldade de imaginar um em tempos de cólera. Daqui cinco anos eu posso estar casado, morando em um lugar que não tenha um lembrete mórbido no meu quarto, o qual tenho medo de ignorar. Alguém capaz de amar minhas personas, ou melhor, o resultado de todo esse teste diabólico imposto a mim. Ele irá estar comigo em todos os momentos. Às vezes, imagino uma cena cotidiana. Uma pessoa sem rosto ao meu lado, me acompanhando. Sinto ela feliz por estar compartilhando aquele momento comigo. Uma quinta-feira. Um café da manhã. Um episódio de uma série visto no fim da tarde, depois de um dia de trabalho que vai para conta do esquecimento. Não precisamos ver para sentir essas coisas, para sentir gratidão. E eu sentia, vindo daquele corpo sem rosto na minha imaginação, não me deixando sozinho, e, eu devolvia o sentimento na mesma proporção.

Tento fazer minha mente trabalhar coisas as quais considero saudáveis, para alimentar menos essa ideia de estar vivendo em uma Matrix doentia, e, quando vejo, estou deitado na minha cama, passando da hora de dormir novamente. Dormir pouco e mal foi algo adquirido ao longo dos dias iguais, completando o combo de novas mesmas coisas concluídas como um roteiro de um demente internado em uma clínica psiquiátrica. Tomo as pílulas, compareço nas terapias. Lá, eles não têm mais noção da realidade. Lá, eles vivem tentando achar um significado para a vida. Um filme sem começo ou meio ou fim, apenas uma cena na qual acaba e começa, acaba e começa, mas nunca acaba. O amor deles também não tem rosto? Gostaria muito de ter criado todo o exposto até aqui de fantasias, resultado apenas de uma imaginação fértil, exemplos distantes da minha realidade. Mas a única mentira contada a você é o que disse estar na parede, que, por coincidência, ou ironia, é de todo branca.

Figura 1: White Cube. Disponível em < http://ttnotes.com/white-cube.html#gal_post_30248_white-cube-london-5.jpg> Acesso em 31 de jul. de 2020. 



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sexta-feira, 17 de julho de 2020

O ICEBERG




Talvez essa seja a melhor hora para voltar. Mesmo não existindo algo que me faça querer voltar. Nem mesmo a autoestima que construí durante os dias foi capaz de me convencer que eu voltaria. E, se fosse possível (agora vejo que é), como poderia? Já não sou aquele. Antes, precisava voltar, e agora?  Estava certo de que não. A solidão me acompanhou por tantos dias e noites que aprendi que ela não é motivo para que eu volte. Estar feliz, muito menos. Demorei muitas fases da vida para conseguir aprender que às vezes não vale a pena voltar. Se for para reviver traumas que não deveriam ter acontecido. Se for para lembrar de algo que não deveria ter vivido. Se for para lembrar que se viveu tanto, e, o que restou do sentimento foi somente um rebobinar de memórias. Foi aí que percebi. Passei tanto tempo tentando não voltar, mas tudo que fazia não passava de uma repetição de sofrimentos, de uma negação da minha capacidade de voltar. E eu cresci, tanto que não conheço mais aquele eu que gostava de voltar, que confundia voltar com repetir. E voltar não é o mesmo que repetir, demorei para entender. Foi então que acordei, e pensei: Talvez essa seja a melhor hora para voltar. Vinte para as onze da noite, a hora em que voltei a escrever, e voltarei quantas vezes forem necessárias, porque voltar pode ser novo. Porque voltar pode ser renascer, e, no momento que estamos, renascer é preciso.
Volto;
Renasço;
Escrevo;
E anseio por quem irei encontrar.   


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