sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Cacto: Uma vida para amar



Ele não entendia. Passara toda a vida caminhando atrás daquilo que todos diziam existir, amor, ele chamava, mas não tinha certeza se aquela palavra seria suficiente para o que sentia de fato que faltava dentro de seu corpo. Mantinha uma vida sozinho, por mais que tentasse conviver com outros seres, era sempre ele, e ele. As estações do ano iam e vinham, dias e noites o perseguiam, mas só o preenchiam, ora sem sono, ora sem animo.

Fora no deserto, pois lá a solidão não era tão fria, mas, mesmo assim, estava pronto para servir de sombra para quem quisesse repousar entre seus braços. O que ganhara? Nenhuma história amiga, apenas desesperados animais em busca de alguns pedaços de seu corpo, que ele dava, em uma oportunidade desesperada de ser um mártir. Mas não morrera, ali estava, prontamente esperando o próximo a retirar um pouco de si, e ir embora. Mesmo assim, não sentia falta daquilo que fora lhe tirado, mas sim daquilo que nunca estivera em seu corpo.

Também passara uma época da primavera em uma floresta bem robusta, repleta de tantos animais e árvores, pares e pares de seres felizes. Via pássaros cantando, sentia até mesmo as flores sorrirem, porém, nunca para ele, e, quando o viam, ou o preenchiam com um vazio em seus rostos, ou corriam, assustados talvez, e o corroíam, mais do que seus pedaços retirados no ambiente arenoso.

Uma vez, avistara um sábio mago em seu caminho, e, com destreza e um pouco de temor, perguntara ao senhor:

- Por que sozinho sou? Por que não consigo encontrar esse tal de amor?

- Meu pequeno, alguns existem apenas para ser- E logo se foi, sem responder a maior de suas dúvidas: Por quê?  Por que continuara a caminhar à procura de algo que já estava cansado de não encontrar? Por que tentar dar o que pensara ser esse amor, se não existia ninguém capaz de recebe-lo?

Foi quando parou.

Mas, ele não parou de procurar, não parou de se perguntar. Foi obrigado a parar pois não tinha mais caminhos a andar. Havia algo mágico, bem abaixo da terra, um espelho capaz de ver o sol, que sempre esteve ali, as nuvens, que sempre o acompanharam, mas, agora havia algo novo. Vira pela primeira vez, sua forma, seu corpo, seu próprio eu, e se apaixonara à primeira vista, mesmo sem os pedaços retirados, não fazia questão, lá estava toda a expressão que aguardara toda uma vida para achar. Aquele corpo dava e queria receber exatamente tudo que ele estava procurando, o amor. E assim, ele caminhou feliz, afundando em sua imensa gratidão, por terminar sua caminhada encontrando sua própria razão de ser.
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domingo, 1 de julho de 2018

Obsesso

Faço convites
Nenhuma resposta
Penso em algo que possa mudar
Essa intermitavel proposta
Nenhum verso chulo
Com rimas baratas
Faço convites
Para uma vida menos cara
Pode ser insegurança
Talvez fraqueza
Medo de ter visto
Alguém com tanta destreza
Subo
Desço
Viro esquinas e volto caminhos
Para mostrar que nem sempre pode haver
Alguém com os mesmos destinos
Sei que é difícil
Também já vivi dessa vida
Mas nada me faz pensar em outra forma
Para encontrar uma saída
Somos iguais
Diferentes, semelhantes, temidos
Temíveis
Porém, em cada gole que tomo
Esse veneno se torna menos letavel
A vida, menos amável
E meu desejo continua um só
Prisioneiros todos somos, meu querido
Não vê que de carne estamos envolvidos?
Caídos em um mundo que está em pedaços
Também caminhamos a procura de algo
Sem nome
Sem forma
Mas sabemos que existe
Existe e sentimos
Mesmo sem descrever
As vezes vemos
Mas de longe, a luz pode ser dúbia
De perto
Cego ficamos
Mas não quero te cegar
Trago clareza
Pois da minha pureza
Perdi tentando mostrar a outros
Passo dias só pensando
Perco no tempo e no dia que estou
Tentando encontrar uma solução
Explicação
Para a falta de coração
Que sentimos ter
Seria fome?
Falta de algo que nutre
Seria a soberba
Que esconde o tudo
Faz-nos sentir o vazio
E assim procurarmos
Seja em corpos
Papéis
Palavras
O medo que preenche todo esse vazio
Desenhado de dragões
Flores e caveiras
Que fechou por completo
O que deveria estar repleto
Daquilo que não sabemos o nome
De nada sou
Tudo possuo
E por ser desse jeito, respeito sua distância
E por ser desse jeito, ansio esse encontro
Deixo tudo no pensamento
Quase tudo fica pronto
Só falta aceitar o convite
De conhecer a si mesmo
De uma forma que nunca vira antes
Sinto lhe informar
Mas a água cura tudo
Só não limpa o que temos por dentro
Isso só o tempo pode levar
Com o vento batendo em seu peito
Chegando, de alguma forma
Até meus ouvidos
Gritando
Surtando
Deixe a paranóia de lado
Rodopie com sua obsessão
Controle-a
Seje-a
E, deixe-me lhe contar mais um segredo
Coloque na conta, que eu pago
Sabe o assobio que o vento lhe traz?
Sou eu tentando
De alguma forma te buscar.
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terça-feira, 5 de junho de 2018

Ποιος είσαι

Quem é? Te pergunto duas, três vezes. Quem é? Quem você é? Pois assim posso entender, me mergulhar e dizer, esse é você. O que queres? Nada sei além de mim, nada me vem à cabeça além de dúvidas. Mas o tempo corre, ele corre, mas você não foge, não agora, talvez queira dessa vez, talvez queira depois de ser, talvez mais depois do que antes irá querer, depois de outros tocar, depois do divino perder, e perceber que ele você irá reencontrar, perdido em tantos por quês tatuados em mim, e enfim minha pele sentir, e dessa vez eu possa ouvir: é amor, dessa vez é amor. E a felicidade possa descansar, pois então nascera, pois de morte basta toda a vida até aqui.

Quem é? Por quê queres abrir todo esse mundaréu de breu que demorou encontrar um freixo  de luz para se abrir, ele é novo, ele é puro, e posso finalmente sentir como é respirar. Você conseguiu mostrar que a lua, independente de sua forma, é uma só, e foi nela que encontrei o freixo para abrir meu mundo, e é por essa luz que você caminha, na mesma velocidade, até mim. É comigo, que você que não sei quem é, irá caminhar? É nessa família que então poderei profanar, liberar as ninfas do meu secreto altar, fazer com que todos os deuses possam invejar esse encontro inesperado, escrito, falado, sonhado, que virá?

Muitos pontos, poucas linhas, e isso me alegra. Pensar que não é só de tristezas que nasce o meu querer, e que posso errar, duas, três vezes, concordâncias podem faltar, mas, que não preciso ser cego, surdo, mudo, para sentir o seu vir até mim. Não preciso perder meus sentidos para ganhar algo novo, não preciso ser outro para encontrar o que não tinha, e, que na verdade, pouco me importa quem és, quero saber o que serei, depois de tua boca tocar, saber se melhor ou pior será, se agora quem irá correr serei eu, se no final das contas eu nunca me conheci, e, agora, depois, no tempo, nascerei e viverei a cada pulsar seu dentro do meu corpo, a cada suor, libido, suspiro ofegante que há de soltar, em meio a seus abraços, de braços que não serão mais fortes, pois sua força será apenas mais algo do que se tornou único.

Quem é?

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sábado, 5 de maio de 2018

(Ã) n s I (a)

Tenho ânsia, falta-me forças. Minhas mãos tremem. Trêmulas, não sabem dizer o porquê, muito menos minha boca, com a ânsia de jogar fora algo que não sei bem o que é, ando engolindo tanto porcaria por aí que me dão, que já não sei o que irei digerir, além de palavras tortas, escritas ou faladas.

Trêmulo, já não sei se devo escrever ou falar mais. Ato minhas mãos, para que o tremor cesse por um momento, mas meus lábios começam a sentir o terremoto que pairava pleno na região central do meu corpo. Já não sei que forma descrever minhas emoções ou reações fisiológicas, e, diferente do que muitos pensam, não há defesa, não há ataques, há apenas um eu tentando não explodir com esse tic-tac que percorre meu corpo.

Mesmo trêmulos, meus lábios se esforçam para movimentar. Peço Socorro. Mãe, pode me ajudar? Respira fundo, meu filho, ela diz. Foi algo que você comeu, não há o que temer. A vida é assim, mas, para mim é tudo tão novo e ruim. Viver é assim? O silêncio invade o barulho, pois a pergunta fora feita de mim para mim, pois meus lábios se ataram, assim como minhas mãos, pois não aguentaram toda aquela pressão. Você ouviste, filho meu, ela diz. Toma água, água resolve tudo. Cuidado com o mundo. Fique com Deus.

E, ao desligar o telefone, prender minhas mãos, morder meus lábios e ser entregue à uma entidade que nem eu mesmo sei como é, meu tremor volta à suas raízes. Meu coração dispara, é hora de parar. Foi algo que comi, minha mãe disse. Foram as palavras que ouvi, ou a caridade que recebi? Fostes a comida comprada, ou o comprar da comida? Foram as frases mal entendidas, ou, por eu entender demais as frases, não quero mais dizê-las? Foram os amigos que abracei, ou aqueles que esqueci de amigo ser? Fora algo que comi, mas isso sabido era, eu aceito tudo que está em volta, não há desperdícios. Respiro fundo, como minha mãe dissera, e, ao sentir o oxigênio entrando em meus pulmões, consigo entender porque meu coração ainda pulsa acelerado. De coração aberto, aceito os ares e pesares de todas as vidas. Bebo água, água cura tudo, de água tudo é.

Minha ânsia permanece, e continuarei tremendo pela vida, até sentir a confiança de me jogar por inteiro e desfazer meus mistérios. Quando eu finalmente não ter mãos trêmulas, elas se cansarão de tantas palavras que estão guardadas aqui. Quando meus lábios forem soltos, não haverá ouvidos nesse mundo capazes de ouvir o que tenho a dizer. Quando meu coração aliviar, será que ainda poderei sentir? Entregado a Deus fui, e, talvez ele saiba, preparado ainda não estou, por isso tremo, me calo e quase morro todos os dias, engolindo um vômito que não é meu, pois não há lugar em que eu possa enfiar o dedo guela à baixo sem ser julgado de louco, doente, maldoso ou ruim. Mas, mesmo assim espero, ansioso e ansiado, tremendo cada vez mais, por uma vida mais devagar e leve que disseram que existe.

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quinta-feira, 5 de abril de 2018

Vinho e abóboras

Olho para seus olhos, mas sei que seu olhar não quer dizer nada. Eu escuto, escuto, escuto, mas juro que as únicas palavras que me lembro não são suficientes. Todos sabem que nosso caso é antigo, que se algum de nós dois parar para pagar a conta, ele sai sem calças desse bar. Ela tá pendurada faz tempo, e quem vai acabar pagando sou eu, a conta e o mico, o embaraço e o desperdício de tantos olhares e falares que faltaram para eu dizer que acabou, porque nunca tem o suficiente para eu dizer com clareza que foi alguma coisa. Você não fecha nem as pernas para sentar, imagina todos esses números que nos vem acompanhando, correndo o risco de brigar ali com o dono, tentar pagar com algum favor. Eu ficaria bravo, acabaríamos discutindo. Você gritando algo do tipo PRONTO, VOCÊ QUER FALAR DE VIDA? VOCÊ QUER MESMO FALAR DA VIDA, DA SUA, OU MELHOR, DA MINHA VIDA? NOSSA VIDA? MEU QUERIDO, DE NOSSA NÃO EXISTE NEM ESSA CONTA QUE EU JÁ CANSEI DE OUVIR VOCÊ RECLAMAR. Levanta. Sai da mesa e me deixa sozinho mais uma vez.

Olho para suas mãos, e não sei como dizer que as desejo novamente. É estranho, não sei desde quando combinamos, mas, se existisse um par perfeito nesse mundo, teríamos essa certeza. Você diz sobre seus mistérios, ouço como outra língua, fico dias tentando decifra-los. Eu passo noites tecendo histórias com os novenos embaraçados que você me traz na porta de casa. Cada problema, cada palavra dita, cada palavra não dita, se tornam estrelas no final do meu tear. Temos um universo já, pelo menos temos algo.

O que mais você quer que eu escreva? Quer que eu fale de como sinto medo toda vez que me imagino com cinquenta e tantos anos, e não vejo ninguém ao meu lado? Que tenho medo de escrever aqui sobre todas as coisas que moram comigo, que dormem comigo, e você ler, e pior, compreender, como seus olhos me dizem isso silenciosamente? Como não entendo essa vida de encontros e desencontros que me faz perder o sentido, o motivo e o porquê de tudo que faço ou tento pensar? Quer que eu diga como não entendo o quão fácil e simples parece ser você entrar na minha cabeça, ouvir todos meus pensamentos só de olhar minha expressão, como se minha mente fosse uma casa de praia que você passa um feriado, e deixa a bagunça para eu limpar depois? Minha mente não é simples, minha mente não é fácil, e você faz parecer que sou um mentiroso.
Ao mesmo tempo que brinca com meu coração, sei que sabe cuidá-lo como ninguém, deixo ser seu brinquedo quebrado, esperando conserto, temendo ser trocado. Por mais que eu diga para mim mesmo "Dessa vez é a última", "Chega, basta disso", "Cuide de você mesmo", me vejo sempre no início, naquele primeiro oi tímido que ambos demos, mesmo eu conhecendo todos seus traços e você todos meus truques. Sempre me vejo querendo ver seus olhos como um louco, viajando, correndo, arriscando, querendo, sentindo tudo e todos. "Que essa seja a última", prometo enquanto fecho os olhos, mordo os lábios, aperto minhas mãos contra as costas e tento lembrar porque toda vez que olho para mim, só consigo ver você.

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sábado, 3 de março de 2018

Verdades jogadas ao vento, de dentro

Todo mundo pede para nascer, senão, nunca entraríamos em um útero, multicelulares, pluricelulares. Não é como um sorteio de loteria, aliás, nem sorteios de loteria são como deveriam realmente ser. Rogar a maldição de estar vivo para outrem é de suma ignorância e hipocrisia humana, o que resta então é entender o porquê, ou apenas aceitar esse porquê. Enquanto lamentamos o nosso nascer, ser, estar, perdemos tempo que poderíamos apreciar nosso nascer, ser, estar. Enquanto achamos que nossa vida pode não estar valendo a pena, não vemos que qualquer situação pode fazer ela valer a pena, pelo motivo de estar acontecendo algo, ou nada. A inércia é contemplada pelo acontecido, o vácuo existe por não existir.
Sentimos perdas, causas trágicas e coisas que nos fazem apegar a algo que beira um divino quase nunca alcançável. Tentamos buscar respostas de tudo, pra tudo, mesmo que já sabemos o que aconteceu, ou queremos nos enganar, ou queremos nos reafirmar. Nunca estamos preparados para aquilo que não nos parece benéfico ao nosso bem estar. E viver em sociedade é uma merda, tão grande que não aguentamos o cheiro, nos escondemos, seja nos nossos quartos, em um quinto de cigarro aceso que não pode ser jogado fora pois é dinheiro jogado fora e acabamos não entrando naquele show, no mercado, atrasamos para aula pra não ter que forçar um sorriso e dizer que está tudo bem, naqueles trinta minutos que não dá pra estudar, não dá pra falar com calma com a nossa tia que insiste em saber se já estamos estabilizados financeiramente. Esqueça o psicológico, ele é sempre deixado para depois, e esse depois, só Deus sabe quando, é só ele tem salvação, para você ver que não era tão grande assim.
Muito nunca é o bastante, e o fim só é reconhecido na morte. Conseguimos um emprego, mas não fomos promovidos ainda. Temos filhos, mas eles se tornaram uns drogados, aquela puta que não parece que saiu de mim, ou aquele vagabundo que prefere ficar na rua com meia dúzia de maconheiros do que ficar em casa zelando pela imagem dos pais que lhe deram carinho, amor, educação e algum dinheiro pra comer, que foi revertido em três ou quatro latas de cerveja. E foi com o dinheiro da comida não ingerida que os filhos encontraram sua felicidade, foi de quarteirão em quarteirão escuro, de uma cidade pequena, que aquela moça pode entender que a vida vale mais que um casamento, e goza amores toda noite por si mesma, e é assim que a vida também tem sentido, mas, mesmo assim, é pouco. Não podemos ser dois, não podemos ser todos. Daí, nos enchemos de algo que completa o vazio em nossas almas, e não vai ser algum entorpecente, algum vinho tinto importado ou Deus que vai conseguir retirar todo esse enxofre que foi colocado embaixo da nossa pele, que sentimos arder onde deveria bater um coração. Algumas cicatrizes não são retiradas nem com cirurgia plástica, mas fazemos, fazemos sim quando da, quando se consegue dinheiro, quando se rouba da mãe, do Estado, da velhinha que estava na esquina, mas o guarda viu e você foi preso, dois anos de detenção, a perda da mãe e mais dois quilos de mancha negra no seu peito. Nada reverte a negatividade do mundo, e o perdão só serve para seguirmos em frente, nunca para trás.
Me sinto sozinho, cada dia mais, mas sei que existem milhares iguais a mim, que cada vez mais se afundam em seu próprio abismo, mas, é preciso e essencial saber voar nessas horas. O céu não tem limites, e saber voar não significa fugir, se esconder ou tentar retirar todo o peso das costas que ganhamos com o tempo. Saber voar é não cair no final do abismo. Saber que sempre podemos descer, com cada olhada que alguém nos dá de desaprovação, de saber que alguém que está do nosso lado e deveria nos apoiar mas mente, que independente de quão fundo seja o poço, ele não tem chão. Podemos cair mais fundo, mas nunca morrer por isso, então, por que não aproveitar a queda livre e sentir o frio da barriga da montanha-russa que é viver?

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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Três palavras, uma pergunta: Quem foi Alcião?

Alcião
Filho dos céus e da terra
Graça e maldição.
Mudo, trata sentimentos com leveza, pois sabe que se der mais peso do que possui, pode cair no chão antes da hora, por não aguentar seu próprio mundo. traz em suas costas uma bagagem incapaz de levar em qualquer outra mala. É gracioso, pois assim contando ou tentando explicar, não há nada que possa simbolizar o peso do ser passado, desde a herança de suas ninfas, ainda que o digam "não é verdade!" E gritem para todos os ventos. Alcião, ele sabe da verdade, mas guarda para si.  Voa, voa alto como se todo o peso mencionado antes não existisse, voa leve, como se o que houvesse no final fosse apenas felicidade. Cai, diante ao mar, aponta sempre para o inalcançável, e nunca saberemos se ele chega uma dia a alcançar, ou se então na morte que se cumpre todo legado. Não é sobre morte de algo que talvez isso seja uma história espelhada de tempos pouco próximos, mas é por celebrar a vida, e saber como ela pode ser real ou não, ao mesmo tempo, na mesma vida. Mas, daí por diante tem-se várias, como máscaras que paga-se para saber ou ter o presente, como se fosse a última carta sempre. E o Alcião joga todas suas fichas, aposta nele e nos outros também, pois acredita em tudo, e tudo pode acontecer com ele, e, mesmo se a hora do nada chegar, o resultado é tido com gratidão em tributo ao passado vivido. O Alcião é sozinho, azul, anilando a costa. Por viver, sobrevive, mesmo que seja apenas nas palavras contadas por alguém que admira a coragem, mas canta baixo dentro da sua gaiola, vendo há quilômetros e metros o seu voar, e comprovando que sim, é lindo a liberdade de ser quem é, e mesmo você não desvendando quem foi, mesmo assim ele existe em você, pois o que seria mais que Alcião senão sentir pelo outro? Às vezes de mais.
Às vezes de menos.

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

1 - 94 - 2 - 32 -23 - 31 - 8 - 0

Fora um pedaço de papel que nos separou do paraíso. Caso não fora isso, na primeira vez que abri, não haveria pensado umas duas ou três vezes: fora sonho então? Viro é vejo de bruços a certeza e dúvida, de que eu jogaria todos os fora, para ter aquele é, que estava descansando bem ao lado do medo de não existir aquele breve ser.

Na melodia encontrou sua rima
E aqui, digo: fica triste não
Triste por ter indo e vindo
Tantas e tantas
Triste por levar mais de você consigo
Por tantas e tantas
E saber que há mais tristeza que uma simples canção
De cores felizes
Que se encontram nas suas
Tantas, todas
Correndo por dentro
Tendo no centro
Seu próprio esconderijo

Fomos pequenos como pássaros. Triste por breve vindas, abrindo asas para aquilo que não conheciamos. Voavamos, cada vez mais alto, gaivotas, gaviões, a cento e incontáveis quilômetros, em busca do melhor horizonte. Antes, também fomos pássaros, sempre fomos assim, livres, leves, corajosos arranhando céus, desafiando a infinitude acima de nossas penas e bicos, que mal sabíamos que não havia vantagem alguma ao nosso favor, o horizonte nunca acaba, mas não sabíamos disso, só voávamos, cada vez mais alto, à procura do mais calmo e belo pousar, para então continuar a voar, pois é assim que vivíamos. Antes também fomos pássaros, porém, não nascemos já voando, e, até descobrir que podíamos controlar nossa própria queda, sofremos com o atrito do chão, desfigurando algumas penas, soltando-as como sonhos, a dor é a mesma, mas, encontramos cada vez mais penas e forças para, matematicamente, instintivamente, por nossa vida ser voar, voávamos, voamos, cada vez mais alto, e iludindo a nós mesmos, que o horizonte sempre muda a cada nascer do sol.

Saiba que nessas palavras
O objetivo é bem claro e simples
Branco e Dourado
Eu tentei
No mais honesto tentar
Mostrar que o infinito não é nada
Além da criação de alguém
Que quer envelhecer a todos sem nem saber porque disso
Sem nem saber se somos capazes também
Que o infinito não é nada para quem voa
Atrás de seu próprio horizonte
E, agora, ao olhar em seus olhos
Vejo a imensidão que suas asas podem chegar
E mesmo não tendo nenhuma cartola de mágico
Nem alterando a realidade com meu querer
Saiba que tentarei deixar leve
O peso que o tempo pode trazer
E que ele não fará com que suas asas cansem
E nem mesmo as vezes que irá se perder
E você vai
Eu também
Mas das muitas coisas que desconheço
Uma das poucas certezas que possuo
É da imortalidade das fênix que ainda existem
Ela descansa em seu peito
E grita toda vez por liberdade
Quando encontra a sua luz
A sua

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Eduardo 2.0

Esse texto é pra você. Porque eu acordei hoje com uma vontade muito grande de poder te dizer tudo que ainda ficou dentro de mim, e não soube como começar a falar, então escrevi, escrevi duas ou três frases que logo foram apagadas e seguidas por mais duas ou três frases ensaiando uma conversa que eu não queria ter com você, porque não era verdade. A verdade é que sinto falta de você, falta de toda a história que não tivemos por medo, medo seu ou meu ou de ambos ou a falta de medo o bastante para que houvesse coragem para continuar. A tristeza de ter que escrever mais algumas duas ou três frases para me satisfazer e matar essa vontade que tenho de te dizer algo tão simples. Que fico triste em não saber como poder transformar uma conversa normal em algo que não seja "ah, quanto tempo", "o que faz por aí?", "Já encontrou quantos melhores que eu?". Talvez vários. São muitos os que passarão por sua história e talvez tenham transformado ela em algo que eu não conheça mais. E tenho medo, medo de que depois desses meses eu tenha mudado tanto que você perceba algo de diferente nos meus traços, e agora se apaixone por essa versão 2.0 que é uma farsa. Digo uma farsa, pois tudo me levou ao dilema de dizer-te que sempre quis estar ao seu lado, e agora o mereço por não ser mais aquele que tanto te quis? Blasfêmia, maldito e pouco caso. Não quero ganhar méritos por esforços tidos pela tristeza que passei. E passei demais, por tantas que me cansa pensar agora, e nem devo dizer. Quero parecer aquelas pessoas importantes, que passam por tudo e tiram algum aprendizado dos pesares, e foi o que disse nas últimas vezes. Tá sendo difícil, mas to levando bem. Muita coisa acontecendo, talvez em um café eu te diga. Mas, antes eu não gostava de café, consegue perceber a mudança? Eu sei que você não percebeu, não comentou sobre. Porém, tenho que dizer que isso me alegrou, pois alguma parte de mim alertou que isso mostra que não mudei pra você, então, em algum momento poderia reacender todo o interesse que teve por mim. É tolo, é chulo pensar assim, nem sei se foi tanto interesse, se fosse, não estaria aqui, balbuciando alguns dizeres para esvaziar todo esses dois minutos de coragem que encheram meu peito de vontade de gritar: VOLTA, SÓ AGORA, VOLTA! Com infinitas exclamações só para ser escandaloso, te chamar atenção e fazer olhar para tudo que passei, e mesmo assim, ainda paro na mesma estaca, onde você disse que tínhamos interesses diferentes. Não te julgo, nem te maldigo ou jogo praga, não fora ruim, nem em metade de todo meu iludir. E eu provavelmente tenha amado um ou dois mais que você, e alguns, mais do que você poderia um dia vir me amar, mas é que houve aquela faísca, aquele olhar de caramba, alguém realmente consegue me ver como eu gostaria que me vissem no mundo. E tudo isso se foi, no dia que eu precisei engolir todas as frases para recompor um oi nunca mandado, uma rua trocada para não dar de cara com aquele que era para ser o único, mas foi só mais um.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Prólogo.

Meu coração foi feito de ouro, como os fios do vestido de minha mãe. Como também foi construído meu castelo. Um dia ele foi assim. Um dia ele nasceu assim. Ainda sinto em meu sangue todo o definhar diluído que corrói, com todas as maravilhas trazidas com as maldições. Como foram assim trazidas, como presentes para mim um dia, nesses dias dourados onde era banhados por toda água doce e cristalina que poderia existir na Terra de Noram, como bençãos dadas pelo que existia em todos. Como se o presente e futuro pudessem existir juntos. Como se não houvesse o que esperar, estava tudo ali. Mas a história que contou agora e desde então, a história que existe na minha pele como mancha de todo ouro tirado de um existir que já foi, ela não é feliz, mas grita por estar se tornando, e isso é loucura dizer hoje, por isso temem ser, mas não há conhecem, não conseguem ler em mim, mas nunca fui inteligível. Mas agora o peso de todas as palavras me fazem conta-las. Por isso preciso eterniza-las nessas poucas palavras ditas, e, esperar que você, ao tentar emtende-las ao lê-las, saiba que cada tinta e página gasta no tempo que existi fora para alertá-los de toda beleza e os perigos de existir, existir como ninguém mesmo, existir como você nunca pensou conseguir em uma vida só. Porque eu nunca deixarei, mesmo depois de existir, que alguém possa fazer isso como eu fiz. É perigoso.
Pois aqui, aqui e agora, conto-lhe segredos escritos em mim e primordiais para toda e qualquer existência, essa sendo única. sou eu mesmo pois, mesmo sabendo de onde pude vir e onde ainda estaria, caso existisse toda essa eternidade que nos prometem, não me faz odiar o que me tornei hoje, muito menos tudo que já fui um dia. Porque sei que toda a eternidade que pudesse existir foi roubada. Trago isso em minha pele, queimada com os escritos, borrando todos os socorros. Mas, mesmo assim, ela pode brilhar toda noite se você deixar, e eu deixei. E foi mais fácil do que pudesse um dia sonhar, por mais que eu tenha sonhado e ainda sonho toda noite, cada vez diferente, mas nunca minha.
Ao brilhar, eles puderam me ver também, e me perguntam como um dia pude ser assim, e o que tenho a dizer são essas palavras e a seguintes. Pois o cachoeirar dessas lembranças transbordou essa eternidade no tempo errado. Sou um erro para todos, e para provar preciso descrever os alertas que jamais gostaria, nesse julgamento injusto que a vida se tornou. Contarei como existi, e agora existo, como salvação de todos e de mim mesmo, tantos que pesam mais que a eternidade que um dia senti, e agora peso em contar tentando consertar todo o tempo que me resta.

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